Por Carlos Heinrich de Andrade
Há quase quatro séculos, um filósofo inglês chamado Thomas Hobbes explicou por que os homens aceitam viver debaixo de um governo. A ideia era simples e dura: cada um abre mão de fazer justiça com as próprias mãos, entrega essa força ao Estado e recebe uma única coisa em troca, que é não morrer. Nada além disso. O poder daquela época não prometia uma vida boa. Prometia vida.
Só que esse acordo foi mudando com o tempo. Primeiro veio a proteção do que é seu. Depois vieram os limites para quem manda. E no século passado, depois de duas guerras mundiais, o mundo chegou a uma conclusão nova: não basta o Estado deixar o cidadão vivo, ele precisa garantir condições para que essa vida valha a pena ser vivida. A segurança deixou de ser o objetivo do governo e passou a ser apenas o ponto de partida.
No Brasil isso não é teoria de livro, está escrito na Constituição com todas as letras. Logo na abertura, o texto coloca o bem-estar entre os valores mais altos da República. No artigo 1º, fixa a dignidade da pessoa humana como base de tudo. E no artigo 3º, talvez o mais esquecido de todos, lista aquilo que o Estado brasileiro tem obrigação de perseguir: uma sociedade justa e solidária, o fim da pobreza, o bem de todos. Não é enfeite de preâmbulo. É dever.
A consequência disso é maior do que parece. Prefeito, governador e presidente não foram eleitos para tocar a máquina, gastar orçamento e entregar obra. Foram eleitos para melhorar a vida de quem mora ali. O asfalto não é o objetivo. O asfalto é o caminho para a ambulância chegar a tempo, para o ônibus não quebrar, para a criança não faltar à aula quando chove e para o trabalhador voltar mais cedo e ainda encontrar os filhos acordados.
Essa é a régua. E é justamente porque ela existe, escrita e assinada, que se pode dizer sem exagero que muita gente no poder a perdeu de vista. A obra virou o fim. A gestão virou fotografia. E o bem-estar das pessoas, que deveria ser o alvo, virou consequência acidental. Por que isso acontece, e por que é mais grave do que um simples defeito de caráter, fica para o próximo artigo.





