A eventual adoção do voto distrital misto no Brasil pode mudar a maneira como candidatos de Anápolis disputam eleições para vereador, deputado estadual e deputado federal. A proposta em discussão no Congresso Nacional prevê a combinação entre representantes eleitos diretamente em distritos territoriais e parlamentares escolhidos pelo desempenho dos partidos em listas. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou em 28 de outubro a intenção de discutir e votar uma mudança no sistema eleitoral ainda em 2026, com transição em 2030 e implementação prevista para 2034.
Em uma simulação que considera a divisão das cadeiras entre o voto distrital e o voto partidário, Anápolis poderia integrar um distrito com representação própria na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) e outro na Câmara dos Deputados. O número de representantes eleitos por cada região, porém, dependeria do desenho definitivo dos distritos, que será estabelecido apenas se a proposta for aprovada.
O município tem população estimada em 424.647 habitantes em 2026, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e é o terceiro maior colégio eleitoral de Goiás.
ALEGO E CÂMARA FEDERAL
Uma das possibilidades é dividir as 41 cadeiras da Alego entre 20 representantes eleitos diretamente em distritos e 21 escolhidos pelo sistema de listas partidárias. Nesse cenário, cada distrito teria, como referência, cerca de 350 mil habitantes, considerando a população estadual e a distribuição territorial das vagas.
Como Anápolis tem população superior a essa média, a cidade poderia formar o núcleo de um distrito próprio para a eleição de deputado estadual. O desenho territorial precisaria considerar, entretanto, a possibilidade de divisão do município ou de ajustes com cidades vizinhas, de acordo com as regras que fossem aprovadas.
Na Câmara dos Deputados, uma simulação com oito representantes distritais para Goiás, além de nove vagas preenchidas por listas partidárias, produziria distritos com aproximadamente 882 mil habitantes cada. Nesse caso, Anápolis provavelmente seria o principal centro urbano de uma região eleitoral que incluiria municípios próximos.
O resultado seria a possibilidade de eleger diretamente um deputado estadual e um deputado federal com base territorial em Anápolis, sem impedir que outros candidatos ligados à cidade conquistassem cadeiras pelas listas partidárias.
A quantidade total de parlamentares com origem política ou eleitoral no município, portanto, não ficaria limitada a esses dois representantes. O número final dependeria do desempenho dos partidos e das candidaturas nas duas modalidades de votação.
VEREANÇA
A mudança poderia alcançar igualmente a Câmara Municipal de Anápolis. Com 23 vereadores, uma divisão próxima à metade resultaria em 11 ou 12 cadeiras distritais, enquanto as demais seriam preenchidas proporcionalmente pelas listas partidárias.
Em uma divisão territorial hipotética, cada distrito municipal teria aproximadamente 35 mil a 39 mil habitantes. Os candidatos precisariam concentrar sua atuação em uma área específica da cidade, apresentando propostas relacionadas às demandas dos moradores daquele território.
Esse formato poderia alterar a estratégia eleitoral de vereadores que hoje dependem de redes de apoio espalhadas por diferentes bairros. A disputa tenderia a valorizar candidatos com presença mais concentrada em determinadas regiões, embora a força das legendas continuasse relevante na eleição proporcional.
O modelo também poderia mudar a relação entre os parlamentares e a população. Um vereador eleito por distrito teria uma base territorial mais definida, o que facilitaria a cobrança por compromissos relacionados à infraestrutura, mobilidade, saúde, educação e serviços públicos.

REPRESENTATIVIDADE REGIONAL
A defesa do voto distrital misto está relacionada à tentativa de aproximar os representantes de suas bases eleitorais e reduzir distorções na distribuição territorial da representação política. Em cidades com eleitorado expressivo, mas com votos divididos entre muitas candidaturas, a eleição de representantes distritais poderia assegurar uma vaga vinculada diretamente à região.
Anápolis já enfrenta o desafio de transformar seu peso eleitoral em uma representação política proporcional à sua importância demográfica e econômica. Em 2022, quatro deputados estaduais com forte base local foram eleitos, enquanto Rubens Otoni foi o principal representante com ligação política com o município na Câmara Federal. Em 2026, porém, caiu para três o número de eleitos para a Alego, embora tenha crescido o percentual de votos dados a candidatos locais.
O voto distrital, entretanto, não garantiria automaticamente o aumento da bancada anapolina. O resultado dependeria da quantidade de distritos atribuída à região, dos limites territoriais estabelecidos e da capacidade dos candidatos de conquistar a maioria dos votos em cada área.
PROPOSTA NEGOCIADA
A adoção do sistema não está definida. A discussão anunciada por Hugo Motta ainda depende de negociações entre partidos, da tramitação da proposta no Congresso e da definição das regras para a divisão dos distritos e das vagas partidárias.
O deputado federal Glaustin da Fokus (Podemos) apresentou, em 27 de outubro, o Projeto de Lei 5.671/2026, que propõe instituir um sistema misto para a eleição de deputados federais, estaduais, distritais e vereadores. A iniciativa é uma das propostas relacionadas ao debate sobre a reforma eleitoral.






