Henrique Morgantini
Luís Miguel Mendes é o que o jornalista Érides Guimarães (1925-2010) classificava como anapolitano. Neste caso, não somente um brasileiro que escolheu Anápolis para viver. Natural de Angola, quando ainda era uma colônia portuguesa, o empresário chegou ao Brasil em busca de oportunidades. Parou em Anápolis, e hoje defende com estratégia, estudo e espirito inovador mudanças conceituais no Comércio, que dependem diretamente de adaptações legislativas. “Muito do que queremos na CDL, junto com outros atores, depende de atualizações para dar segurança jurídica a investidores”, explica. Nesta entrevista, Mendes analisa o cenário econômico local, fala das propostas para o Centro e dá um recado: empresários do varejo precisam compreender a mente do “novo consumidor”. Acompanhe os principais momentos.
Anápolis Diário – A CDL tem atuado na negociação dos bares e restaurantes que ofertam música ao vivo e que foram alvo das ações de Postura. Objetivamente, quais são os eixos de atuação hoje para tentar resolver isso?
Luís Miguel Mendes – Vamos lá. Por que a gente entrou? A gente começou a ouvir um barulho: de um lado a força da lei, da ordem pública. E de outro lado tinha profissionais, músicos, empresários, donos de bares reclamando. Fui surpreendido porque pensei haver algo contra o empresariado. Numa reunião no Ministério Público, fomos apresentados a números, dados. E aí nós entendemos a ação.
AD – O que estes números demonstraram?
LMM – Algumas das empresas fiscalizadas, de um universo de mais de 500 visitadas, tinham efetivos problemas com falta de alvarás, de autorizações, sem alvará de vigilância sanitária. Muitos já tinham sido notificados antes. Eu vi ontem o anúncio de um desses estabelecimentos, anunciando que vai retornar as atividades agora adequado às normas. Eu disse, “olha aí, entendeu”. Nosso papel foi buscar equilíbrio entre as partes. Nós tínhamos músicos sendo afetados, os garçons… há uma cadeia econômica que acaba sofrendo impacto. Entramos no diálogo para melhoras as relações.
AD – Na semana passada o AD citou a proposta de regularizar os parklets. O que falta para isto avançar na legislação?
LMM – No documento “Caminhos para Prosperar”, que a gente entregou, já está previsto isso. É um elemento que já deveria estar na nossa legislação. A gente divide o direito sobre duas óticas, a do setor privado e a do setor público. Qual é a ótica do setor privado? Tudo que não é proibido, é permitido. Qual é a ótica do setor público? Tudo que não é permitido é proibido. É exatamente o inverso. Então, na lei precisa constar, na lei municipal, no código de postura, no plano diretor para que ele seja legal e possível de ser utilizado. Isto vai entrar em debate no novo Plano Diretor.
AD – Como está o acompanhamento das demandas presentes neste documento?
LMM – São muitos eixos. Então, na CDL, nós temos a parte do centro, que passa pela requalificação na infraestrutura, revisão das calçadas, etc. Há a parte do estacionamento, que depende de um edital. Um edital que sempre que está pronto para ser publicado, volta para a Promotoria, com alguma denúncia. Eu não sei a quem interessa atrasar tanto a existência.
AD – Qual é a proposta?
LMM – Estacionamento digital, eletrônico, rotativo. Hoje, já não precisa de parquímetro, que é um elemento físico. Este é virtual. Através de um aplicativo, você paga e uma câmêra no quarteirão faz a leitura e avisa do seu prazo no celular, ou seja, cria a rotatividade, que é o principal objetivo em vias públicas. Há ainda a reurbanização, a “remoradia” no centro, ou seja, viabilizar que investimentos sejam feitos para a gente trazer o cidadão para morar novamente no centro, para assim atrair novos investimentos comerciais no centro.
AD – Como seria esta “remoradia”, passaria por algum incentivo tributário?
LM – Começa com a revisão da lei. Hoje, a parametrização entre tamanho do imóvel versus altura não permite o investimento, porque nós estamos limitados a prédios de cinco, seis andares. Não compensa para a construtora. Precisamos flexibilizar, permitir prédios de 20 andares. Teríamos duas, três, quatro torres de 20 andares, com apartamentos de R$ 300 mil. O cidadão deixa de morar lá no Pirineus, ou lá na BR, para morar no centro, porque é o mesmo preço e vai estar mais bem localizado, mais próximo de tudo.
AD – O Centro precisa ser ressignificado?
LM – No passado, o centro era uma necessidade, de ir ou de estar nele. Eu precisava ir ao centro. Hoje eu compro de casa, no meu quarto, compro de qualquer lugar do planeta. O Centro precisa comercialmente se tornar um local de lazer, de passeio, de entretenimento, de eu gostar de ir ali turistar.
AD – Em que fase está todo este debate?
LMM – Na Fase Dois. Na Fase Um surgiu a ideia, a discussão. O grande problema agora é sair dessa fase de projeto e ir para a execução. Há decisões a serem tomadas. Enterrar fiação ou não, liberar já a moradia e depois fazer as obras. Essas decisões é que travam o andamento, de sair do Planejamento para a Execução. Claro que uns vão gostar, outros não, vão criticar, vão elogiar, mas vamos ter um resultado. A partir daí dá para buscar lojas âncora e falar, “olha, quer ir para lá, temos isso aqui para oferecer, vamos fazer isso”. Por exemplo, uma própria vila gastronômica está pensada, uma nova área de alimentação. Depende de legislação.
LM – O senhor chega numa ideia de uma nova CDL para um Novo Comércio. O senhor já tem uma estratégia para cuidar desse desafio?
AD – A gente tem um público começando a empreender, que já vem bem antenado sobre novas técnicas. E a gente tem ao mesmo tempo um comerciante do balcão, da tradição. Este tem mais dificuldade com ferramentas e com a aceitação de alguns processos. A gente pretende ajudar na compreensão deste ambiente, com tecnologia, com Inteligência Artificial.
AD – O que o novo consumidor quer na loja física?
LM – Quer a experiência. A ambientação daquele estabelecimento. Quando você vai comprar um tênis, ele só vai a uma loja física se ele quiser. Lá, ele não tolera mau atendimento, ele quer atenção, conforto. Então, eu quero uma sapataria que interaja comigo. O consumidor tem de sentir prazer de estar ali.
AD – E o comerciante local, em média, já entendeu isto?
LM – Não. Não só em Anápolis. A CDL tem atuado com oficinas, orientações, incentivos à modernização com conhecimento. Estamos fazendo oficinas, preparando uma plataforma em EAD para colocar esse conteúdo ao associado. A ideia é que a gente leve entendimento acerca desta mudança no comportamento, na estratégia do empreendedor. O novo consumidor também não aceita mais o tratamento de antes. Ele quer ser paparicado. Se você não quiser paparicar, fecha o seu negócio e vai trabalhar de outra coisa, porque no Comercio vai precisar.






