Cleide Hilário é vereadora de segundo mandato. Na reta final do primeiro, ganhou um presente político: a Procuradoria da Mulher na Câmara Municipal foi entregue aos seus cuidados. Ganhou a chance de fazer barulho, que é o que se faz numa Câmara Legislativa. Casos de agressões às mulheres ocorrem todos os dias.
Se a ferramenta política é mal aproveitada é ela quem perde, logo de cara. Mas uma atuação mal feita prejudica também mulheres que são alvos permanentes e, potencialmente, estão sempre à mercê de alguma violência.
Esta semana, a Lei Maria da Penha ganhou destaque num caso envolvendo um médico da cidade. Não chega a ser alguém “famoso”, mas é um profissional ligado à Estética, que vem angariando um certo renome em sua atuação. Como muitos profissionais, ele usa intensamente as redes sociais. Atribui-se a ele competência e resultados. Os pacientes realmente gostam dele. Os amigos idem. Eu conversei com vários deles.
Nas redes, somos todos o cruzamento de Brad Pitt com Jesus Cristo.
Contra Frederico Jaime há uma denúncia da irmã, Danielle, de agressão física. A história é uma porradaria generalizada na casa da mãe pelos relatos do boletim de ocorrência, já que envolve, também, outra mulher. A esposa de Frederico procurou a Polícia Civil para registrar que foi agredida pela cunhada.
O Anápolis Diário registrou o caso com cautela de se restringir aos documentos oficiais da Polícia Civil. O caso foi parar sob os cuidados da experiente Delegada da Mulher, Isabella Joy. Por mais que Joy seja militante da Lei Maria da Penha, é fundamental reconhecer que ela tem malícia profissional para tatear quando uma mulher está armando algo contra o marido, namorado, amante ou, neste caso, o irmão, ou não.
Danielle contou sua versão, mostrou os vídeos que ela mesmo postou do que seriam momentos imediatamente posteriores à agressão. Nele, um homem – que se atribui ser Frederico Jaime – xinga, xinga demais.
É possível que Cleide Hilário tenha visto o vídeo. Alguém certamente a enviou o “link no insta” sendo ela mulher, vereadora, e titular da Procuradoria da Mulher.
Danielle também mostrou à delegada da mulher algo que não veio à público, mas que o Anápolis Diário teve acesso: um arquivo de áudio.
No documento – que não foi periciado e, portanto, deve ser tratado na condicional de ser verdadeiro ou não como todo o caso – a gritaria é generalizada. No meio, é possível ouvir uma criança chorando diante da cena que presencia: sua mãe apanhando do tio. Não são palavras, são gritos de uma pessoa de três anos.
De seu gabinete, ou da filial da Igreja Universal do Reino de Deus, onde é sua base eleitoral, Cleide Hilário não conseguiu ouvir o áudio. Assim, devo avisá-la: é perturbador. Talvez não tão quanto Juízes, capitulo 19. Mas é.
Foi perturbador para mim, que sou homem, velho, mas não estou acostumado com pautas policiais. Foi, para mim, que estou mais perto de bater numa mulher do que apanhar de uma.
Os sons me fizeram mal.
Um homem grita ofensas, daquelas clássicas. “Não era isso que você queria”? Outra voz feminina, que Danielle atribui à própria cunhada, demonstra preocupação: “Para, Fred, larga”.
Eu não me desesperei com a ideia de uma mulher apanhando. Escondido dos outros, eu chorei. Escondido da minha mulher, já que sou homem macho. Chorei bem aqui onde escrevo este texto ao imaginar aquela criança, de três anos. Eu não me conectei ao drama de Danielle, ou da cunhada, afinal, é mais fácil me identificar com o doutor Frederico, que não segurou a onda e “perdeu a cabeça”. Talvez ele também chore escondido. Tomara.
Eu chorei porque eu pensei no meu filho, que tem quase da idade da menina.
Dona Cleide não sabe que eu chorei, patético e sozinho, em cima duma mesa sob a luz amarela. Que depois resolvi beber em plena segunda para ver se esquecia aquele áudio. Dona Cleide não tem nenhum compromisso com o meu alcoolismo de ocasião, meu mecanismo frágil. Dona Cleide não tem nada que ver se eu ando sensível demais. E está certa, ela.
Ela não se conectou a nada.
Nem mesmo quando, no dia seguinte, o mesmo médico pediu que amigos o ajudassem a silenciar a reportagem referindo-se à lei que protege as mulheres de “essa bosta de Lei Maria da Penha”.
Nem depois, quando a delegada subiu o inquérito adiante, tornando-se, a pedido da vítima, uma requisição judicial de medida restritiva. Se o caso passou pelo primeiro filtro, o da delegacia, era hora de um magistrado fazer nova análise para saber se aquilo era imaginação duma maluca, ou se tinha algum “fundo de verdade.”.
Frederico Jaime não pode chegar perto da irmã, nem de nenhuma testemunha (as tias, a mãe), numa distância mínima de 300 metros. A determinação é do o juiz Renato César Dorta Pinheiro.
Essa bosta de Maria da Penha.
CORES, NOMES
Esta semana Dona Cleide foi à tribuna demonstrar toda eloquência de um discurso lido sobre o “Maio Laranja”, em que alerta – que ironia – aos abusos contra crianças. No Trem das Cores mensais, Cleide não viu o roxo-cinzento dos hematomas de Danielle. Está no vídeo. O grito da criança não tem cor.
“Quanto mais cobramos, com certeza, uma criança será salva”, leu, no Grande Expediente. Nesta lógica, cada ausência da Procuradoria da Mulher em se manifestar – por dedução cartesiana – tem direta responsabilidade nas porradas que Danielle pode ter levado. E nos gritos daquela menina.
Dona Cleide não viu, nem ouviu nada.
Danielle pode estar mentindo. Neste caso ela enganou a doutora Joy, o doutor Renato e eu chorei à toa.
Essa bosta de Jornalismo.
AS OUTRAS
Além de Cleide, a Câmara tem uma Capitã da PM, que usou a tribuna para defender o marido, que andou xuxando dinheiro público em rádio pirata.
A Câmara é presidida por uma mulher, que posta foto com um X vermelho na mão, numa dessas campanhas de conscientização contra a violência às mulheres.
Tem mais duas, que salvam bichos de maus tratos. Eu sei – de conhecer mesmo – que ambas têm uma paixão nisto a ponto de enrolarem suas vidas na causa.
Esta semana, eu não ouvi a voz de nenhuma delas sobre essa bosta de Maria da Penha. Mas ainda consigo ouvir o som da porrada comendo, aos gritos de “vagabunda”. E um grito –maldito grito – duma menina chorando.
Essa bosta.






