O ex-superintendente Julio Moraes Santos e o ex-vice-presidente da Agehab Wendel Garcia da Silva eram as peças centrais de um esquema de desvio de verbas públicas destinadas à construção de moradias populares do Governo de Goiás. É o que aponta o inquérito do Ministério Público de Goiás que levou à deflagração da Operação Confrades.
“Eles se utilizam dos cargos para favorecer, desde a contratação até a fase de execução, a empresa Excel Construtora e Incorporadora, que tem como sócio proprietário André Luiz Hajjar, pessoa que, à época dos fatos investigados, possuía vínculo de parentesco por afinidade com o vice-presidente da Agehab”.
Este é o relato inicial da peça jurídica que detalha com documentos, planilhas e cruzamento de dados todo o esquema. Um estes dados comparativos mostra que a empresa era convocada à assinatura do contrato por chamamento a partir de editais que eram manipulados.
“Registra-se que os valores dos contratos celebrados pela referida pessoa jurídica com o ente público são expressiva e vertiginosamente superiores aos valores apurados nos exercícios anteriores à nomeação de Wendel Garcia”, destacam os investigadores.
Em 2022 e 2023, a Excel Construtora havia celebrado contratos no total de R$ 68.675.577,54. Se comparado com o volume dos anos de 2024 e 2025, que superam R$ 185 milhões, “evidencia acréscimo aproximado de 169,85% em relação ao período de efetivo exercício de Wendel Garcia no cargo”.

Acima, a Planilha de Contratos da Excel comprovando o aumento exponencial do volume financeiro após chegada de Wendel
“A análise dos editais de chamamento deflagrados pela agência entre os anos de 2022 e 2025 revelou um aumento significativo e atípico das adjudicações e contratações da Excel Construtora após Wendel Garcia chegar ao cargo diretivo com aumento, inclusive, da quota de adjudicação nos editais subsequentes, resultando na concentração de 29,89% da totalidade dos contratos celebrados com fundamento no Edital de Chamamento Público n. 002/2024”, registram os promotores.
PREDILEÇÃO PELA EXCEL
A evolução “abrupta e desproporcional” dos valores contratados e empenhados em favor da empresa investigada após a chegada de Wendel à Agehab evidencia que Garcia passou a “operar como canal privilegiado de repasses à Excel”. Segundo os promotores, isto se dava pela relação pessoal e familiar: Wendel era genro de Hajjar.
Somente em 2024, a Agência Goiana de Habitação celebrou 20 contratos com a empresa pelo valor total de R$ 146.249.977,71. “Sob a atual gestão, a Agehab passou a ser vetor de transferência de recursos públicos”, concluem os integrantes do MP-GO.


DEPENDÊNCIA ECONÔMICA
Em diligências realizadas em janeiro de 2026, constatou-se que o então vice da Agehab morava em um imóvel de alto padrão que pertence ao dono da empresa beneficiada.
“A constatação corrobora de forma inequívoca os indícios de vínculo pessoal estreito e duradouro do agente público com o empresário. Vínculo este que ultrapassa o mero parentesco por afinidade já identificado, revelando relação de dependência econômica direta entre o dirigente e o núcleo empresarial do esquema”, arrematam os promotores.
Para os investigadores, o custeio e disponibilização da moradia “em bairro nobre da capital” está diretamente ligado às decisões administrativas da Agehab.






