Apesar de fazer a defesa política do deputado, da vereadora Capitã Elizete e demais aliados, responsável por grupo de comunicação é trabalhadora simples numa madeireira de Goianápolis, e ganha menos que o piso salarial dos radialistas que emprega
O complexo de comunicação ligado ao casal de políticos formado pela vereadora Capitã Elizete (PRD) o deputado estadual Coronel Adailton (Solidariedade), composto por site, jornal virtual e dois podcasts transmitidos por emissoras comunitárias parceiras está no nome de uma funcionária administrativa de uma empresa madeireira, especializada em paletes, localizada numa rodovia que dá acesso a Goianápolis.
Mas ao invés de tocar os negócios, quem está à frente do negócio é Adailton Florentino Nascimento Júnior, filho do casal de políticos, que atua também como comentarista político no podcast “Painel Diário” e rege a linha editorial do site Diário do Município.
Nenhum dos três tem qualquer ligação formal com a empresa. A “Diário do Município Ltda.” pertence a Veridiane Pereira de Jesus, que trabalha no setor burocrático da empresa goianapolina mais de 30 quilômetros distante do estúdio onde acontecem as transmissões, que fica no Parque São Jerônimo.

SURPRESA E FUGA
Ao ser abordada pela reportagem do Anápolis Diário sobre sua gestão à frente da empresa “Diário do Município”, Veridiane demonstrou surpresa e “fugiu” da própria sala, alegando precisar fazer uma ligação telefônica para tratar do assunto.
A visita da reportagem do AD – ocorrida na tarde de quarta-feira (25) – tinha o objetivo de buscar informações sobre a conduta editorial adotada por ela à frente da empresa. Esta semana, o perfil do Instagram do Diário do Município publicou reportagem sobre a empresa Sausalito que – entre outras atividades ligadas à comunicação – também edita e publica o AD. A reportagem da empresa de Veridiane, no entanto, não abriu espaço ao contraditório, algo básico do jornalismo.
Um dos objetivos era oferecer uma versão do tema por ela abordado a fim de contribuir com a reportagem. Para surpresa do AD, ela não fazia ideia do que se tratava.
Veridiane foi encontrada na sala onde atua, na madeireira. Após a identificação do repórter e do tema a ser tratado, a empresária de comunicação disse que precisava “fazer uma ligação” e já retornaria para prestar esclarecimentos. Em seguida, Veridiane saiu do local, caminhando para dentro da empresa, sumindo por entre as enormes pilhas de paletes.

Local por onde a empresária se deslocou para fazer a ligação antes de responder às questões envolvendo seu site: não retornou
“NUNCA VI”
Após 10 minutos de espera, sem o retorno de Veridiane Pereira de Jesus, e por temer pela segurança, a reportagem deixou o local. Como Veridiane não voltou das colunas de paletes, não foi possível prestar esclarecimentos da pauta e nem mesmo saber informações de sua conduta editorial. O espaço – como de praxe – segue à disposição.
O Anápolis Diário conversou, sob a condição de anonimato, com profissionais que atuam no complexo de comunicação ligado ao Coronel Adailton para saber da relação que mantinham com a empregadora de todos eles. A resposta foi uníssona: “nunca vi essa pessoa”.
O único vinculo “oficial” de Veridiane com o casal de políticos é seu carro, completamente adesivado e caracterizado com a propaganda política de Coronel Adailton, candidato à reeleição. Estava estacionado na empresa onde ela cumpre carga horária semanal.
IMPLICAÇÕES JURÍDICAS
O desconhecimento da funcionária administrativa, e o susto com o assunto abordado, é apenas parte do problema. Como a empresa está em seu nome, Veridiane é responsável por todas as ações e responsabilidades fiscais, trabalhistas e jurídicas.
O Anápolis Diário apurou ao longo desta semana que ao menos três ações judiciais questionam o conteúdo editorial de edições do Painel Diário, podcast liderado por Adailton Júnior. Os questionamentos a serem rebatidos recaem, neste caso, aos autores dos comentários e, também, à empresária que, como atestado, não faz ideia do que é feito em seu nome.
HISTÓRICO E SALTO DE 5.000% EM CAPITAL
Veridiane Pereira de Jesus, de 43 anos, abriu sua Micro Empresa Individual (MEI) em 2019, na Rua 8, em Goianápolis. Seu capital social era de R$ 1 mil. É isto que aponta o histórico da empresa, de acordo com dados públicos da Receita Federal. De acordo com consulta ao SPC Brasil, o cartão CNPJ 34.928.928/0001-52 se destinava a realizar “treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial”.

No entanto, o mesmo CNPJ aparece atualizado com novo nome, “Diário do Município”, outro endereço, no Parque São Jerônimo, onde funciona a atividade de jornalismo da família de Adailton. Em 2025, ocorreu a transferência do antigo Diário da Manhã de Anápolis (DM Anápolis), que pertencia à empresa T10 Mídia, para o domínio de Coronel Adailton. Por razões de propriedade de marca, que pertence ao editor Júlio Nasser, foi mantida a sigla (DM – Anápolis), com outro significado. O CPF/CNPJ usado na transação comercial foi outro.
Chama atenção que Veridiane Pereira de Jesus mudou de área e de padrão financeiro: da empresa de consultoria de R$ 1 mil para a edição de jornais, sites e afins, o capital social ganhou robustez, passando para R$ 50 mil. Veridiane segue como única no quadro societário. E ainda trabalhando na madeireira.

EXPERIÊNCIA
A experiência oficial da empresária com comunicação é nula: em seus registros públicos não há qualquer ligação com o setor ao qual parece ter-se aventurado. Já com madeireiras, sim. Ela possui histórico de atuação em duas empresas, ambas na área de produtos em madeira. Uma em Santa Teresa, no Espírito Santo, e outra em Monte Carmelo, em Minas Gerais.
A experiência no setor madeireiro levou Veridiane à empresa atual, com uma das sedes em Goianápolis. Responsável pelo RH, seu salário referencial segue o mesmo dos dois registros anteriores: R$ 2001,84, segundo informações apuradas.
Para efeito comparativo, o piso salarial normativo nacional de referência da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) para profissionais de Rádio, TV e Jornais é de R$ 2.506,80.
Veridiane emprega aos menos três profissionais do rádio e jornal em sua empresa, dois deles diariamente à frente dos microfones. Todos ganham mais que ela. Um deles, conforme já apurou o AD, ganha mais que o dobro que a empregadora.





