O transporte coletivo de Anápolis é um paciente que há anos está na UTI, à beira da morte, e na esperança de um remédio para revivê-lo. E a cada dia que passa a dose precisa ser maior. Ignorado por muitos anos, este sistema agora recebe atenção e parece estar próximo do tão sonhado e necessário medicamento de ressuscitação.
Na segunda-feira (13), durante a posse de Luiz Antônio Rosa com presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás (Codego), o governador Daniel Vilela (MDB) reafirmou que o Estado tem a disposição de apoiar, com subsídio, o processo de reestruturação desejado para o serviço pela administração municipal.
Este é mais um ponto importante numa tortuosa estrada que começou a ser trilhada no ano passado. Depois de assumir com uma série de promessas para melhorar o transporte coletivo, o prefeito Márcio Corrêa (PL) se deparou com um sucateamento. Dos choques com a concessionária ao apelo ao agora governador Daniel Vilela, ele começou a construir um plano para salvar o paciente no seu leito de morte.
Quando fez o anúncio de que o Estado está ao lado da prefeitura no processo, Vilela também deu um recado claro: a bola está com a empresa. O governador cobrou da Urban um plano de investimentos para passar à etapa de definição do subsídio. “Em Goiânia, os investimentos levaram à renovação da frota, com mais de 800 ônibus novos, novos terminais, tecnologia e mais conforto para o passageiro”, disse o governador. “Em Anápolis, para termos o subsídio, precisamos também da contrapartida da empresa”, avisou.
A mesa de discussão entre a prefeitura e a Urban está aberta. O próprio prefeito tem mantido contato com a concessionária, num processo que passa também pela Agência Reguladora do Município (ARM). Por parte da empresa, apesar da cobrança pública, a perspectiva é de otimismo.
“Estamos esperançosos. O diálogo voltou, está aberto e temos esperança de que isso (a reestruturação do sistema) se materialize. Não é só a operadora, é um serviço público. E ele precisa de sinergia, de renovação”, disse ao Anápolis Diário o diretor-jurídico da Urban, Carlos Leão.
E O PLANO?
Desde o ano passado, a pedido da Comissão de Urbanismo, Transportes, Obras e Serviços Urbanos da Câmara Municipal, a empresa começou a trabalhar no plano de investimento. Há, porém, uma ambiguidade. Enquanto o governador quer saber o que a Urban vai investir, a concessionária precisa saber qual será o subsídio para dizer o que pode ser feito – e em quanto tempo.
Questionado pelo AD, o governador afirmou que o modelo de subsídio – que poderia ser direto ou indireto, como uma subvenção, por exemplo – ainda não está definido. Tampouco o montante do aporte. Diante do cenário de incerteza, a Urban preferiu organizar um plano com diversos cenários.
Eles vão desde a concessão da isenção do ICMS que incide sobre o diesel para a operação frota até o pagamento de subsídio direto. No mais ousado, a proposta é: se proporcionalmente o investimento público em Anápolis for o mesmo de Goiânia, a Urban diz que consegue entregar até mais do que é oferecido na capital .São vários fatores e uma discussão ainda incipiente, mas eles resumem-se em três eixos principais: renovação da frota, inovação e infraestrutura.
Embora envelhecida, a frota da Urban, alega Carlos Leão, tem em sua maioria ônibus fabricados há menos de dez anos. A renovação total é uma possibilidade, mas depende muito do valor que será aportado ao sistema. Hoje, o sistema tem 160 veículos, e a prefeitura obteve aprovação, via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, para financiar pelo BNDES uma frota completamente nova. Até mesmo veículos com energia renovável estão no radar, mas tudo depende do tamanho do aporte.
Leão lembra que o contrato de concessão já prevê que a empresa seja remunerada para manter ônibus novos em operação, o que não aconteceu.
Outro eixo é o da inovação. A Urban projeta oferecer novos produtos tarifários e meios de pagamento para os usuários do sistema. E aí entra a digitalização. “Podemos fazer uma inovação no sistema de bilhetagem, pagamento por Pix e outros atrativos para quem usa o transporte coletivo”, explica Leão.
A ideia também é passar a operar um aplicativo que acompanha os ônibus, como já existe em diversas cidades, e informa horários e tempo estimado de chegada dos veículos. “Queremos um acompanhamento em tempo real”, define o diretor-jurídico da empresa.
Por fim, a infraestrutura. Embora seja uma cidade com extensa malha urbana, Anápolis segue com apenas um terminal e uma operação contraproducente. Todas as linhas passam pelo Centro. No projeto de reestruturação está a construção de até cinco estações de transbordo nos eixos principais do município, inclusive no Daia, que tem uma das maiores demandas.
“Queremos conseguir mais frequência (dos ônibus) e interligação (das linhas). As estações ficariam nos eixos principais para integração para que os ônibus circulem, acessem as miniestações e os corredores sejam mais ágeis. Mais viagens em menos tempo”, sublinhou Leão.
O sistema viu sua crise se aprofundar no período de pandemia, quando a demanda caiu – e o passageiro não mais voltou – e os custos subiram com a inflação generalizada dos insumos. Em 2025, o déficit mensal médio foi de R$ 3 milhões.
“O sistema não se sustenta mais sem subsídio. O custo pós-pandemia se elevou demais. O poder público entra com o complemento. A meta principal é alcançar o equilíbrio, quer seja através do subsídio estadual ou do municipal”, resumiu Carlos Leão.
Como bandeira, o prefeito Márcio Corrêa tem também a redução do preço da tarifa, hoje uma das mais elevadas do estado. No debate até aqui, ainda não se tratou deste tema, que tende a ser o último da lista pela sua ‘abstração’.
“O valor da tarifa é um assunto emblemático. Essa decisão é da administração pública. O que se tem feito é tentar subsidiar ao máximo para não repassar esse custo para o passageiro”, explica o representante da Urban.
“Nós estamos ávidos para materializar esse cenário junto com o município para apresentar para o Estado. No que toca à concessionária, estamos preparados para operar da melhor maneira possível”, finaliza.






