A partir de fevereiro de 2027, o ex-prefeito e presidente do Republicanos Roberto Naves não terá mandato na Assembleia, através do benefício familiar da esposa. Vivian Naves ficou na suplência do único eleito pela legenda. O desempenho do Republicanos em Goiás tornou-se também assunto desafiador: o partido não conseguiu eleger mais do que um deputado federal, deixando de fora a experiente Leda Borges. Apenas Marussa Boldrin foi eleita.
O cenário abre espaço de risco para que, diante do desempenho eleitoral, Naves tenha a sua liderança dentro do partido naturalmente questionada. Ao presidente nacional da legenda, Marcos Pereira, faltará argumento sólido para defender a sua manutenção.
Até o início da gestão de Márcio Corrêa (PL), o redesenho da imagem do ex-prefeito junto ao eleitorado de Anápolis passava pelo mau desempenho do novo prefeito. Agora, num contexto completamente adverso em que Corrêa sai como o grande vencedor do processo eleitoral na cidade, o ex-prefeito precisará de uma estratégia assertiva de tiro único que permita a sua reconstrução política e de imagem.
Tal qual o poema de Carlos Drummond de Andrade, Roberto Naves reconstitui o “José”. “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? … Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, e agora, josé?”
HISTÓRICO
Mas os problemas de Naves com a popularidade não brotaram do nada ou foram inventados. Do contrário: à perspectiva do tempo, é possível ver uma desconstrução silenciosa e contínua.
Reeleito para a Prefeitura de Anápolis em 2020, Roberto Naves não conseguiu manter a popularidade alcançada durante a pandemia. O prefeito passou a ser visto como alguém distante da população, que já dava sinais de insatisfação. Os sintomas foram mascarados com a vitória expressiva de sua mulher à Alego. Vivian Naves foi eleita com mais de 38,5 mil votos, sendo 25,7 somente na cidade.
As ações tomadas a partir de então não foram bem recebidas. O que parecia ser um trunfo, virou um peso preso aos tornozelos: o Anápolis Investe prometia investimentos estruturais de até R$ 1 bilhão. No final, virou um engodo de obras inacabadas e materializado numa ponte estaiada que consumiu R$ 40 milhões e nunca chegou perto de ligar o nada ao lugar algum.

ELEIÇÕES
As eleições de 2024 foram didáticas. Naves rechaçou nomes do seu entorno, como seu então vice Márcio Cândido e seu aliado Leandro Ribeiro, que havia sido presidente da Câmara, para inventar um nome. Surgiu com Eerizânia Freitas, então secretária municipal e da confiança do casal Naves.
Eerizânia conseguiu arrancar a fórceps 21,2 mil votos dos anapolinos, se mudou para Goiânia e nunca mais abriu a boca para dizer uma palavra sobre política. Deixou 20 mil eleitores órfãos de qualquer posicionamento, na base do “votou porque quis”.
Os desgastes do pós-mandato, que poderiam ir amainando, foram se intensificando. Roberto Naves tinha um trunfo, ou contextualizando com sua habilidade ao pôquer, tinha uma carta forte e outra mediana.

BOAS CARTAS
Uma delas era o projeto de reeleição da mulher à Alego. A outra era a presidência estadual do Republicanos. A chapa, montada para que ela vencesse, funcionou, mas para outro: Wellington Cardoso bateu a primeira colocação, deixando Vivian na suplência.
Restaria mostrar força como gestor de partido e entregar ao comando nacional uma grande votação e, principalmente, cadeiras na Câmara Federal, que se traduzem em aumento da participação do fundo eleitoral. Também não deu. O Republicanos elegeu Marussa Boldrin e deixou a experiente Leda Borges de fora.
Saldo: um estadual, um federal. E, nas redes sociais, um constante enfado sobre a sua participação e movimentação política, com pitadas de agressividade. Naves terá de usar sua habilidade política se quiser se reinventar, seja em Anápolis ou em outra região do Estado. O recurso da arte do blefe, ao que parece, não funciona mais.






