Por Henrique Morgantini
Pedro Canedo está há 20 anos longe da Câmara dos Deputados. Há 10 anos, disputou sua última eleição. Deputado constituinte ao lado de outros dois anapolinos, o médico retorna às disputas motivado pela possibilidade de atualizar a própria obra, elaborada ao lado de nomes como Lula, Geraldo Alckmin, Ulysses Guimarães, Mário Covas e outras figuras históricas da política: a Constituição de 1988. Crítico da atuação atual do STF — de Moraes a Mendonça —, o ex-deputado e candidato fala em debater no Congresso “as relações entre os Três Poderes” e lembra, com um pouco de saudosismo, mas certa razão, o perfil dos políticos dos anos 1980 e 1990. “Piorou muito”, atesta. Confira a entrevista.
Anápolis Diário – São 20 anos longe do Congresso Nacional e 10 anos sem disputar uma eleição. O que motivou o senhor a retornar ao embate político-eleitoral?
Pedro Canedo – Anápolis perdeu o seu protagonismo político, mas também econômico. Hoje, a cidade ocupa a quarta posição, economicamente falando, no estado. Isso me motivou, porque eu também fui convidado a retornar pelo ex-governador Ronaldo Caiado e pelo atual governador, Daniel Vilela. Já tivemos dois deputados federais, eu e Lídia Quinan, e tivemos Onofre Quinan no Senado. Hoje, contamos apenas com o deputado Rubens Otoni. Para ter respeito e obter mais recursos, uma cidade precisa de representantes. Eu me senti provocado e estimulado também por lideranças empresariais da cidade. Além disso, o que continua me motivando é o fato de eu ter sido deputado federal constituinte e de ter assinado a Constituição Cidadã de 1988. Hoje, vejo essa Constituição ser desrespeitada, tendo suas páginas rasgadas por decisões do Supremo Tribunal Federal. Tenho orgulho de ter assinado essa Constituição Cidadã numa época em que o Brasil tinha políticos realmente voltados a atender às demandas do país.
AD – A que o senhor atribui a dificuldade que temos hoje de conseguirmos um segundo ou um terceiro representante? O que aconteceu? Houve uma invasão de políticos de fora?
PC – Sim, mas também por falta de nomes em condições de serem eleitos. Esses candidatos de fora, percebendo a fragilidade dos nomes que atuavam na cidade, fizeram essa invasão. Até 1998, nós tínhamos um senador, dois deputados federais e vários deputados estaduais. Até 1998, tínhamos um bairrismo eleitoral. A partir das eleições de 2002, isso caiu por terra, principalmente com a candidatura de Henrique Meirelles.
AD – Por quê?
PC – Porque ele, embora seja anapolino, nunca morou em Anápolis. Veio para ser candidato a deputado federal, utilizou Anápolis como cidade de nascimento, gastou aqui uma fortuna e, consequentemente, conseguiu um mandato que não exerceu nem por um dia, porque foi ser presidente do Banco Central. Veio a campanha de 2006 e o mesmo ocorreu. Tivemos vários candidatos de fora que, vendo o bairrismo deixar de existir, aproveitaram-se disso. Ficamos apenas com um, o Rubens, que foi reeleito. Eu não consegui a reeleição. Em 2002, meus votos foram divididos. Tive 39 mil votos em 1998 e 19 mil em 2002. Henrique Meirelles também teve perto de 19 mil.
AD – O senhor recordou sua passagem como constituinte, numa época em que o principal desafio era consolidar a redemocratização por meio de uma Constituição. Hoje, qual seria o grande desafio, o principal debate?
PC – Continuo com os mesmos princípios que levei para esses quatro mandatos e me sinto em condições de contribuir para essa nova fase pela qual o Brasil passa. Hoje, percebemos que já existe a necessidade de a Constituição de 1988 ser revista e atualizada, porque ela foi feita numa época em que o Brasil estava realmente em processo de redemocratização. Nós não tínhamos a tecnologia que temos hoje. As demandas, principalmente as sociais, são diferentes. Eu me orgulho muito de ter participado como coautor do debate sobre o percentual de investimento obrigatório em educação, de 13% para 18% e de 18% para 25%. Mas existem muitos aspectos que precisam ser atualizados, como essa relação entre os Poderes. É preciso também rever a concentração dos recursos públicos no Governo Federal. Não faz mais sentido a União deter a maior fatia dos impostos, uma vez que nós moramos no Brasil e nos estados, mas, principalmente, residimos nas cidades. Tem que haver uma redistribuição, e isso seria feito por meio de uma revisão constitucional.
AD – O senhor falou sobre uma revisão da relação entre os Três Poderes. O Poder Judiciário se imiscui excessivamente em questões do Legislativo e do Executivo?
PC – A Suprema Corte. É apenas ela que extrapola. Não vemos isso nos estados nem nos outros tribunais superiores. O próprio ministro Alexandre de Moraes agora está acusando o ministro André Mendonça de estar extrapolando, fazendo exatamente o que ele próprio fez: sendo promotor e julgador.
AD – Há quem defenda que esse protagonismo do STF só ocorreu por causa da judicialização de questões que, antes, eram resolvidas por meio de debates e articulações. Uma vez provocados, os ministros começaram a arbitrar sobre questões políticas.
PC – Sem dúvida! O Congresso Nacional perdeu muito. Piorou. Hoje, o dinheiro está comprando eleições.
AD – O nível do debate e da representação baixou?
PC – Muito. Da época do dinheiro na cueca para cá, a situação piorou. O dinheiro fez com que fossem eleitas pessoas que não viam o Brasil como uma nação, como um país, mas como uma oportunidade de defender seus interesses pessoais e empresariais, de fazer negócios.
AD – Anápolis tem hoje uma série de desafios. Como um deputado pode contribuir, por exemplo, para a retomada do protagonismo econômico?
PC – A ação de um deputado federal em benefício do município ocorre por meio das emendas parlamentares. Falta a Anápolis a chegada de mais recursos, que sejam suficientes para que qualquer prefeito, os anteriores e o atual, possa fazer uma excelente administração. Temos apenas um deputado federal que envia emendas. Quando eu falo emendas, são emendas, não “emendinhas”. Emendinhas, temos muitas. Eu explico: o deputado que não é daqui certamente vai querer retribuir os votos, mas fará isso com 5% ou 10% de sua cota. Anápolis precisa de deputados federais que tragam para cá 80% de suas cotas. Eu pretendo, caso seja eleito deputado federal, concentrar a grande maioria das minhas emendas em Anápolis, porque esta é a minha cidade. Uma vez, quando era deputado federal, disputei e perdi uma eleição para prefeito contra Adhemar Santillo. Uma semana depois, fui até ele e pedi que me permitisse ajudar Anápolis, porque, até então, o prefeito anterior era avesso a isso. Adhemar, com a inteligência que teve, fez um belíssimo mandato, porque contava com o senador Onofre Quinan e com o deputado Pedro Canedo para trazer recursos.
AD – O senhor citou sua relação com um adversário. Hoje, a polarização tem afastado aqueles que mais precisam dialogar: os opostos, os diferentes. Os políticos pararam de conversar entre si?
PC – Sim. A maioria dos políticos atuais torce pelo pior, para que possa sobressair. Quando estavam em jogo os interesses da cidade de Anápolis, nós nos uníamos. Imitávamos o que os nordestinos fazem há muitos anos. Lá, a maioria dos estados tem oito deputados. Eles brigam entre si, mas, quando chegam a Brasília para buscar recursos, juntam-se e levam os recursos para lá. Aqui em Goiás, isso não acontece. Fica-se torcendo para que aconteça o pior, para que alguém possa sobressair.
AD – O exercício do diálogo se perdeu, então?
PC – Certa vez, Anápolis estava precisando de uma vara federal, pois não havia nenhuma aqui. Nós nos juntamos: o prefeito Adhemar Santillo; o senador Onofre Quinan; os deputados federais Pedro Canedo e Lídia Quinan; a deputada estadual Onaide Santillo; além da ACIA e da CDL. Trabalhávamos em conjunto. Fomos ao ministro Castro Filho e conseguimos a vara. Com esse mesmo grupo, trouxemos para Anápolis o Porto Seco. Ampliamos os Correios. Juntos, fizemos muitas modificações e melhorias.





