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Casa Cidades Anápolis

“Não ter cura não significa não ter o que cuidar”, diz médico de Anápolis sobre cuidados paliativos

Rafael Tomazeti por Rafael Tomazeti
18.09.2026
“Não ter cura não significa não ter o que cuidar”, diz médico de Anápolis sobre cuidados paliativos
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Quando uma doença grave chega a um estágio em que a cura já não é possível, isso não significa que o paciente deixou de ter o que cuidar. Pelo contrário, o foco passa a ser a qualidade de vida, o controle dos sintomas, o conforto e a preservação da dignidade durante o tempo que ainda existe.

Essa é uma das perspectivas defendidas pelo médico mastologista anapolino Thiago Zago. Em entrevista ao Anápolis Diário, ele destaca que, especialmente nos casos de câncer avançado, é necessário compreender que o fim da possibilidade de cura não representa o fim das alternativas de tratamento e, principalmente, de cuidado.

“O objetivo passa a ser proporcionar a melhor qualidade de vida possível, reduzindo o sofrimento físico e também o sofrimento emocional e psicológico”, explica. Entre as medidas estão o controle da dor, o alívio da falta de ar e a preservação, sempre que possível, de funções básicas como alimentação, sono e funcionamento intestinal.

Para o médico, oferecer conforto, acolhimento e dignidade é parte essencial do atendimento. “Quando não podemos mais mudar o fato de que uma doença não tem cura, ainda podemos fazer muita coisa pela pessoa que está diante de nós”, afirma.

Ele, inclusive, rejeita o termo “qualidade de morte”, que ganhou força nos últimos anos. “Considero que o mais adequado é tratar como qualidade de vida para paciente em fase terminal”, ressalta.

A proposta é possibilitar que o tempo restante seja vivido com o máximo possível de conforto, dignidade e presença. Isso pode significar aproveitar momentos importantes, permanecer próximo das pessoas amadas e compartilhar o período com familiares, com menos dor e sofrimento.

CHOQUE DA FINITUDE

Há pouco menos de três anos, a advogada H.R.C. – que pediu para não ser identificada – descobriu um câncer de tireoide depois de notar uma persistente rouquidão. O baque foi grande quando os exames chegaram, mas havia esperança pelo tratamento. “Claro que eu e minha família ficamos muito preocupados, mas tínhamos muita fé de que o tratamento seria eficaz”, relatou.

Até foi, mas uma metástase tornou a doença ainda mais agressiva e veio a notícia: “o médico me disse que não tinha muito mais o que fazer”, ressaltou. Ali, ela já esperava o pior. “Mas ouvir que você está tão perto da morte é assustador, não vou mentir”, externou.

Para o psicanalista Leandro Borges, o conceito de finitude “talvez seja um dos mais difíceis de elaborar porque existe uma diferença muito grande entre saber que vamos morrer e nos reconhecermos, de fato, como mortais”.

“Talvez venha daí parte do assombro que a morte nos provoca. Enquanto ela permanece distante, conseguimos incluí-la como uma espécie de certeza abstrata. Sabemos que a vida é finita, mas organizamos nossa existência contando com o amanhã. Fazemos planos, adiamos decisões, projetamos encontros, viagens, aniversários. Vivemos sustentados também por essa ideia de continuidade”, explica.

“Uma doença grave pode romper de maneira abrupta essa relação com o tempo. A morte deixa de ser apenas uma possibilidade distante e passa a ocupar um lugar concreto no horizonte. E é justamente aí que a finitude pode produzir tanta angústia. Ela nos confronta não somente com o fim da vida, mas com algo muito difícil de simbolizar: a nossa própria ausência. Há um vazio que se apresenta e para o qual nem sempre encontramos palavras”, completa o psicólogo.

Psicanalista Leandro Borges destaca importância dos cuidados paliativos na fase terminal.

ACEITAÇÃO

H.R.C. demorou alguns meses para lidar com a notícia. “Era duro para mim mesma, claro, mas também era muito ruim ver minha família sofrer. Foi aí que eu entendi que era um ciclo. Se eu sofresse, eles iriam sofrer também. Por isso comecei a aceitar a condição”, relatou.

O psicanalista Leandro Borges classifica o que aconteceu no caso da advogada como tentativa de proteção mútua. “É muito comum. O paciente evita falar sobre a morte porque não quer faze a família sofrer. A família evita o assunto porque teme retirar a esperança do paciente. Forma-se, então, uma espécie de silêncio compartilhado: todos sabem o que está acontecendo, todos estão angustiados, mas ninguém consegue colocar isso em palavras”, explica.

Segundo ele, nem sempre esse silêncio precisa ser rompido imediatamente. “Há momentos em que silenciar também é uma maneira de suportar aquilo que ainda não conseguimos dizer. Mas, quando existe espaço para a palavra, podem surgir conversas muito importantes: agradecimentos, despedidas, pedidos de perdão, decisões, lembranças e até a possibilidade muito simples de alguém dizer que está com medo”, disse.

O médico Thiago Zago também se lembra de quando ele, enquanto profissional, entendeu a importância da aceitação. O caso de uma paciente de 26 anos o marcou. A jovem passou por tratamento para o câncer que a acometeu e, ainda assim, exames identificaram comprometimento pulmonar extenso provocado por metástases. “Já não havia possibilidade de cura e exigia uma abordagem diferente”, conta.

A experiência, diz Zago, o fez perceber que lidar com uma doença avançada não envolve apenas conhecimento técnico. “Diante da finitude, conhecimento técnico é indispensável, mas presença, escuta e humanidade também fazem parte do tratamento”, resume.

O psicanalista Leandro Borges aponta que a aceitação “pode produzir uma diminuição do sofrimento”, mas faz uma ressalva. “Eu teria certo cuidado com a palavra “aceitação”. Ela pode transmitir a ideia de que existe uma maneira ideal, madura ou correta de morrer. Como se, ao final de um processo bem conduzido, todos devessem alcançar serenidade diante da própria morte. A experiência clínica mostra que não é assim”, frisa.

Ele destaca que há o tratamento paliativo é fundamental, uma vez que “o fim de um tratamento com finalidade de cura não deveria ser confundido com o fim do cuidado. O que ocorre é uma mudança em sua direção. Se já não é possível curar a doença, continua sendo possível tratar a dor, aliviar sintomas, preservar conforto, favorecer vínculos, respeitar escolhas e oferecer dignidade”, aponta Borges. “Enquanto houver vida, há alguém vivendo aquele tempo. E, portanto, ainda há alguém a ser escutado”, acrescenta.

CENÁRIO LOCAL

Na experiência pessoal em Anápolis, Zago afirma ter percebido um aumento no número de pacientes que vivem com doenças avançadas e sem possibilidade de cura. Ele faz, entretanto, uma ressalva: trata-se de uma percepção baseada na prática médica, e não de uma estatística do município. “Para afirmar uma tendência epidemiológica, seria necessário analisar dados locais organizados”, frisa.

Segundo o médico, parte desse aumento pode estar relacionada justamente aos avanços da medicina no tratamento do câncer. Atualmente, muitas pacientes são diagnosticadas no momento adequado, recebem tratamento e conseguem viver durante muitos anos. Algumas, posteriormente, apresentam progressão da doença.

“No passado, determinados tipos de câncer avançavam rapidamente e deixavam pouco tempo de vida após a progressão. Com tratamentos mais eficazes, muitas pacientes passaram a conviver durante mais tempo com a doença, mantendo qualidade de vida durante boa parte desse período”, avalia.

O médico diz observar menos pacientes que chegam à primeira consulta já em fase final de vida. É mais frequente, sublinha, encontrar mulheres que foram diagnosticadas e tratadas anteriormente, permaneceram em acompanhamento e, anos depois, apresentaram progressão da doença.

Questionado sobre qual percentual dos pacientes diagnosticados com câncer evolui para a fase terminal, Zago evita apresentar um número baseado apenas em sua experiência. Além disso, o risco varia conforme o tipo de câncer, as características biológicas do tumor, o estágio em que a doença foi descoberta, a resposta ao tratamento e o acesso ao acompanhamento médico e às diferentes formas de cuidado.

O médico destaca ainda que uma doença sem possibilidade de cura não necessariamente está presente desde o diagnóstico. “Há pacientes que descobrem o câncer em um momento oportuno, recebem tratamento adequado e permanecem bem durante anos, mas posteriormente apresentam progressão”, aponta.

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