Vitor Lucas Rabelo Guerra é acusado pelo Ministério Público de participar de irregularidades na compra de motocicletas em Abadiânia: parlamentar também responde a outra ação por supostas irregularidades em negociação de áreas públicas
Por Filipe Santos
A Prefeitura de Abadiânia pagou R$ 135 mil pela aquisição de nove motocicletas Honda Bros em fevereiro de 2021, mas recebeu apenas quatro veículos. As outras cinco unidades, embora integralmente pagas pela gestão do então prefeito Zé Diniz (Mobiliza), nunca foram entregues à administração municipal.
O caso resultou em uma ação de improbidade administrativa proposta pelo Ministério Público de Goiás (MPGO), que inclui entre os investigados o atual vereador Vitor Lucas Rabelo Guerra (PP), então integrante do setor de compras do município.
Segundo a investigação, em 12 de fevereiro daquele ano, a empresa fornecedora emitiu uma nota fiscal no valor integral de R$ 135 mil. O documento teria recebido o atesto de Vitor Lucas, permitindo a liquidação da despesa e o pagamento, realizado em 17 de fevereiro, apesar de os nove veículos não terem sido entregues.
Uma diligência posterior do Ministério Público constatou que apenas quatro motocicletas haviam sido efetivamente fornecidas. As cinco restantes nunca chegaram à Prefeitura. Portanto, não se trata de veículos que desapareceram depois de incorporados à frota municipal, mas de bens pagos com recursos públicos que não foram entregues.
NÃO ENTREGOU
O MPGO também apurou que o responsável pela empresa fornecedora seria Jilmar Rodrigues Trindade, embora o empreendimento estivesse formalmente registrado em nome de seu primo, Giuderley de Freitas Lopes Junior. Em depoimento, Jilmar reconheceu ter recebido o pagamento integral e não ter fornecido cinco motocicletas, atribuindo o descumprimento a dificuldades financeiras e ao aumento dos preços. A defesa sustenta que houve tentativas de concluir a entrega e nega a existência de fraude deliberada.
A participação de Vitor Lucas é um dos pontos centrais da investigação. O Ministério Público atribui ao então servidor o atesto da nota fiscal referente à totalidade dos veículos, procedimento que teria contribuído para viabilizar o pagamento antes do cumprimento integral do contrato.
O valor atualizado apontado pelo MPGO como prejuízo ao erário é de R$ 120.921,04. Antes do ajuizamento da ação, o órgão chegou a propor ao vereador um acordo de não persecução cível, com alternativas que incluíam reparação financeira e sanção funcional. Não há, nos documentos examinados, comprovação de acordo homologado.
OUTRA AÇÃO
Vitor Lucas também figura entre os réus de outra ação de improbidade, relacionada à desapropriação e permuta de áreas públicas em Abadiânia. Nesse processo, o Ministério Público aponta suposto prejuízo de R$ 4,32 milhões em operações envolvendo terreno destinado à ampliação do cemitério municipal e imóvel público próximo ao Lago Corumbá IV.
Na ação dos terrenos, o juiz André Luiz Figueiredo Ligório determinou a indisponibilidade de bens dos demandados, como medida cautelar destinada a resguardar eventual ressarcimento. Os dois processos tratam de fatos distintos e não representam condenações definitivas.
No caso das motocicletas, o mesmo magistrado admitiu formalmente a ação em dezembro de 2025. Em 30 de setembro de 2026, o Ministério Público voltou a se manifestar, requerendo a rejeição de argumentos defensivos e o prosseguimento da instrução judicial.
A responsabilidade individual dos envolvidos, inclusive a existência de conduta dolosa, ainda depende de apreciação judicial. Não há sentença condenatória de mérito identificada na documentação examinada.
VEREADOR LAMENTA QUE PREFEITURA E MP NÃO ACEITARAM ACORDO COM EMPRESA
O vereador Vitor Lucas confirmou a ausência dos cinco veículos, mas ressalta que a empresa fornecedora assumiu a culpa e está se propondo a pagar desde o início da ação proposta pelo Município.
“Mesmo com um processo administrativo da prefeitura contra a empresa e um processo judicial da prefeitura contra a empresa, o MPGO preferiu não tentar o acordo e sanar o problema, mas decidiu entrar com outra ação contra nós”, escreveu o vereador à reportagem.
Vitor Lucas também rebateu a informação de que teria atestado a nota fiscal no valor integral de R$ 135 mil antes da entrega de todas as motocicletas. Segundo ele, o ateste não aconteceu e isso já teria sido apurado pela Polícia Civil.
O vereador afirmou que era presidente da Comissão de Compras da Prefeitura de Abadiânia na época, mas não era o fiscal do contrato firmado com a empresa “Não acompanhei o processo. Nem administrativo nem nenhum outro”, escreveu Vitor.







