Agosto já está no fim e duas semanas de campanha se passaram, mas muita gente nas ruas até esqueceu que estamos em período eleitoral. Não tem jingle chiclete que toca o dia todo, não tem passeata que paralisa o trânsito ou chama atenção nas ruas, não tem buzinaço ou as tradicionais carreatas que tanto nos acostumamos a ver. Muito menos comício.
O ‘silêncio’ da campanha até assustou os eleitores. Não são poucos os comentários, de satisfeitos ou insatisfeitos com o cenário, de que ‘a política não começou’. Poucos são os carros adesivados com os famosos ‘seethru’, raras são as bandeiras e os banners. Falta cor, som, voz, movimento e gente.
O Anápolis Diário conversou com a coordenação de campanha em Anápolis dos principais candidatos ao governo de Goiás e ouviu que, deveras, o negócio ainda não engrenou. E engana-se quem atribuiu isso a desorganização, desleixo ou desengajamento. Tudo é estratégico. Mas, claro, existem também problemas operacionais que acontecem em todo período eleitoral.
Líder nas pesquisas, o governador Daniel Vilela (MDB) não tem um único coordenador de campanha na cidade – e até esta semana havia indefinição sobre quem teria a ascendência sobre agendas – mas o deputado estadual Amilton Filho (MDB) assumiu as rédeas. Na avaliação dele, não há falta de mobilização, porém, existe um processo de mudança no formato das campanhas.
“No nosso caso, não vejo falta de mobilização. Tivemos um grande lançamento em Anápolis, que reuniu, como foi noticiado pela imprensa, mais de mil pessoas, com a presença do governador Daniel Vilela e de várias lideranças. Também já realizamos adesivaços, reuniões, visitas e estamos percorrendo Anápolis e outras cidades de Goiás. Então a campanha está acontecendo, só que de uma forma diferente do que o eleitor estava acostumado a enxergar alguns anos atrás”, destacou.
“Eu diria que ela já está nas ruas, mas talvez não com aquela característica de outras eleições, em que a quantidade de material era o principal sinal de uma campanha forte. Hoje a mobilização acontece muito mais nos encontros, nas reuniões, nas caminhadas, nas visitas aos bairros e aos municípios e no contato direto com as pessoas”, completou o parlamentar.

Responsável pelo marketing de campanha de diversos candidatos, Rodrigo Tizziani diz que a timidez da campanha “não é só uma sensação do eleitor, mas sim uma realidade”.
“A chamada “campanha de rua” tem iniciado cada vez mais tarde eleição após eleição. Há uma mudança irreversível na forma de comunicar com o eleitor e, com velocidade cada vez maior, os candidatos estão entendendo isto”, explicou.
Tizziani diz que, de fato, a desaceleração é estratégica para “evitar um fenômeno conhecido nas campanhas como “queimar largada”, ou seja, iniciar uma estrutura de campanha antes de o eleitor estar preparado para receber a informação.” O marqueteiro aponta ainda que os candidatos estão mais atentos ao que ele chama de calendário do eleitor.
“A verdade é que existe o calendário eleitoral e o calendário do eleitor. Cabe aos candidatos entenderem o momento certo em que o eleitor começa de fato a se interessar pelo assunto das eleições. Este é o momento para colocar a campanha na rua”, destaca.
O AD também procurou a coordenação de campanha de Wilder Morais (PL), mas não obteve retorno.

BUROCRACIA
Na campanha de Luis Cesar Bueno (PT), a impressão é a mesma. O vereador Marcos Carvalho (PT), responsável pela coordenação, tem um entendimento semelhante ao de Amilton, mas avalia que outros fatores atrasam o impacto visual esperado pelo eleitor.
“Existe a burocracia. Tem que registrar material, abrir conta. E há ainda a questão dos custos altos de campanha”, ressalta. Ele argumenta que o PT conseguiu “avançar com velocidade na produção de materiais porque é muito organizado”, mas apresenta outro fator que justifica a percepção de timidez. “Também é parte da estratégia intensificar a mobilização à medida que a campanha avança. Campanha é uma crescente”, diz o parlamentar, que acredita que os eventos ganharão mais robustez logo no início de setembro.
O ex-vice-prefeito Márcio Cândido, coordenador da campanha de Marconi Perillo (PSDB) em Anápolis, também aponta as exigências legais como contratempo. “Não pode ter material na rua sem CNPJ de campanha. Quando ele sai, já está dentro da campanha. E não é só fazer arte. É imprimir. Imagina todos os candidatos utilizando as mesmas gráficas. Não tem tempo hábil para entregar para todos no prazo”, frisa.
Ele também cita a escassez de mão de obra para a contratação de cabos eleitorais como um empecilho. “Hoje há poucas pessoas disponíveis. A grande maioria está empregada”, completa. Ele também projeta um avanço da campanha de rua na largada de setembro.

DAS RUAS PARA A SUA TELA
Se há timidez nas ruas, nas redes sociais a campanha está a pleno vapor. Vídeos, produzidos ou não, artes que envelopam as propostas dos candidatos, exibem dobradinhas, apoios, posicionamentos não passam ao largo do eleitor-internauta, que não consegue se desvencilhar do conteúdo de centenas de candidatos.
“Vivemos um momento de virtualização das campanhas. Não só pelos custos, mas também pelo comportamento do eleitor, que está muito conectado. A cada eleição percebemos novas formas de fazer chegar essa mensagem”, diz Marcos Carvalho.
“A campanha se dava muito no rádio e na TV. Hoje tem o novo perfil: a militância digital. O comportamento das pessoas mudou. Ela não está mais na rua, mas você a encontra no mundo digital”, concorda Márcio Cândido.
“Hoje há menos material nas ruas, menos adesivos e menos daquela presença visual que era muito comum em outras eleições. Ao mesmo tempo, as redes sociais passaram a ocupar um espaço cada vez maior na comunicação e na interação entre candidato e eleitor”, pondera Amilton Filho.

Na visão do marqueteiro Rodrigo Tizziani, as redes sociais ‘redesenharam o modo de fazer campanha’. “O “aquecimento” do eleitor era concentrado antes nas campanhas de rua e na propaganda partidária no rádio e na TV. Atualmente, as redes sociais são peças chaves para ditar o ritmo e o “start” das campanhas. Lutar contra isto seria negar uma maré que ninguém pode segurar”, aponta.
A digitalização, claro, também é uma alternativa de centenas de candidatos que querem reduzir os altos custos de uma campanha eleitoral. “Na pirâmide de investimentos de uma campanha atualmente, as atividades de rua ocupam espaços cada vez menores, sobretudo nas campanhas de menor estrutura que precisam escolher entre a campanha física e a campanha digital.
Márcio Cândido concorda e adiciona: “é mais barata, mais rápida e tem um alcance maior”. Ele, todavia, alerta: “Uma coisa não substitui a outra. A internet não substitui a campanha de rua ou vice-versa. Precisa ser um conjunto. O objetivo maior é levar a mensagem do candidato para o eleitor fazer a escolha do voto.
Amilton Filho tem a mesma leitura. “Não vejo o digital como substituto da campanha de rua. Na verdade, uma coisa fortalece a outra. A presença nas ruas gera o contato, a conversa e a escuta; as redes ajudam a ampliar essa mensagem e fazer com que ela chegue a mais pessoas. Acredito que esta eleição será muito marcada por essa combinação. Quem quiser fazer uma campanha forte vai precisar estar presente nas redes, mas também vai precisar continuar perto das pessoas, nas ruas, nos bairros e nas cidades”, conclui.
Rodrigo Tizziani aponta que as duas vertentes devem se combinar para garantir maior chance de sucesso aos postulantes. “As grandes campanhas atuais são híbridas neste sentido, e este é o ideal. O problema é que a grande maioria das campanhas no Brasil não têm estrutura financeira para ter as duas coisas de forma satisfatória. Nestes casos, cada vez mais, os candidatos optam pelo melhor custo-benefício, que hoje concentra-se no digital”, frisa.







