A abstenção nas eleições gerais em Anápolis avançou sete pontos percentuais em 20 anos e tem desafiado a lógica das campanhas – sobretudo de deputados estaduais, que têm base eleitoral forte no município. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, em 2002, 15,3% dos eleitores do município não compareceram à urna no primeiro turno. Em 2022, última eleição geral, esse percentual chegou a 22,72%.
Anápolis mantém um padrão nacional e estadual de alta, mas os índices por aqui têm ficado ainda mais elevados. Prova disso é a última eleição municipal, em 2024, onde mais de 100 mil eleitores não foram às urnas no segundo turno, numa abstenção recorde de 34,24%.
O fenômeno tem cada vez mais preocupado autoridades ao ponto de, há dois anos, a então presidente do TSE, Cármen Lúcia, anunciar uma investigação conjunta com os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) para averiguar os motivos da abstenção.
Para efeito de comparação, na primeira eleição nacional depois da redemocratização, em 1989, a abstenção foi de 11%. A nível de Brasil, houve um salto de dez pontos percentuais de lá para cá – e um cenário de alta contínua a cada pleito. Para o cientista político e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Guilherme Carvalho, um dos fatores que explica é que a eleição passou a constar no calendário e não há ‘efeito novidade’. Para além disso, ele cita que há um descrédito do sistema democrático
“A democracia também não produziu um estado de bem-estar social como a Constituição prometeu. Não na abrangência que prometeu. Então, isso gera uma descrença do eleitorado de participar do processo”, avalia. Carvalho aponta ainda um terceiro fator que afasta parte expressiva dos eleitores: a polarização. “Nosso sistema é majoritário de dois turnos. Quer dizer, então, que naturalmente ele é afeito a conduzir polarizações. Vivenciamos a polarização PT-PSDB, hoje PT-bolsonarismo”, cita.
“E isso quer dizer que os eleitores que não entendem que votar em um campo ou votar em outro alterará substantivamente a sua vida, ele enxerga que o custo de se abster é baixo. Então, isso vem sendo crescente porque também tem aumentado o número de eleitores que não se identificam com nenhum dos polos que estão em disputa”, explica.
Goiás teve, em 2024, a taxa de abstenção mais alta do país, com mais de 34% dos eleitores abstendo-se no segundo turno – percentual igual ao de Anápolis. Para Carvalho, a polarização também impacta na ausência do eleitor local. “Não tem uma competição entre alguém do campo do bolsonarismo versus alguém do campo petista como os principais polos. Isso conduz a uma perda de interesse por parte de um eleitor que não se sente compelido a votar por ser polarizado. Ele tende a buscar em políticas públicas a resposta para o seu voto. Quando ele não encontra diferencial entre os candidatos, tende a se abster”, sublinha.
E OS PROPORCIONAIS?
Anápolis é o terceiro maior colégio eleitoral de Goiás e tem quatro deputados estaduais na Assembleia Legislativa, além de ser a casa de um dos 17 deputados federais goianos. Além deles, que vão à reeleição, há ainda outros candidatos desafiantes com capilaridade. Poderia então o candidato proporcional engajar a ponto de evitar uma nova alta da abstenção? Para o cientista político, isso depende do carisma dos postulantes.
“O que que mobiliza eleitor em eleição proporcional é afeto. Isso quer dizer ódio ou amor, ou identificação. Identidade. Então, participamos dos mesmos grupos, temos ideias parecidas, por isso eu vou lá. Esse é um mecanismo de atratividade”, aponta.

Isso explica, por exemplo, porque nas eleições municipais o primeiro turno sempre atrai mais eleitores que o segundo. A proximidade de vereadores com grupos locais, as ‘tribos’, mobilizam uma parcela que já não se sente tão instada a votar para prefeito. No caso das eleições gerais, esse papel é mais próximo dos candidatos a deputado estadual e federal.
“Um candidato com o perfil do Gustavo Gayer (PL) mexe com afetos. Uma mulher como a Aava Santiago (PSB) mexe com afetos, atrai eleitor e conduz ele a votar. A identificação da mesma forma: fulano é primo de um amigo meu, vou lá para ajudar. Isso pode mover o eleitor”, avalia.
Em 2022, a eleição para deputado estadual e teve 11,3% de votos nulos ou brancos, o que eleva o não-voto (soma com a abstenção) a 34%. Para federal, também ficou em 34%. No pleito anterior, portanto, os majoritários engajaram mais o eleitor anapolino. Na polarizada disputa entre Lula e Bolsonaro, 26,55% não se posicionaram, seja ausente da votação ou optando pelo voto nulo ou branco. Em comparação, a eleição para o governo de Goiás teve 32,2% de não-voto.
Somente a disputa pelo Senado Federal, entre as majoritárias, mobilizou menos que a disputa proporcional. Um total de 41,27% dos eleitores da cidade – próximo da metade – optou por não votar em nenhum dos nove candidatos a senador na ocasião.
CICLO VICIOSO
A campanha de 2026 foi tratada por muitos como xoxa. Os próprios candidatos admitem que houve pouca mobilização e há cada vez mais dificuldade de falar com o eleitor. Durante o período eleitoral, não faltaram queixas do tipo “ninguém quer ouvir” ou “ninguém pega o material do candidato”. Para Carvalho, é provável que, diante deste cenário, haja uma abstenção ainda maior em 2026.
Ele, porém, aponta para os perigos que taxas tão elevadas de ausência do eleitor causam. Para o professor, há um ciclo de descrédito que se retroalimenta e nasce justamente na abstenção.
“Quem está se abstendo, está se abstendo de escolher alguém para te representar ou representar o grupo da sociedade do qual você veio. E não é que faz a democracia perder legitimidade, mas faz com que os resultados sejam sempre lidos de uma forma negativa. Eu escolho não participar do processo porque o processo não me representa, só que a decisão vai ser tomada independentemente das pessoas participarem ou não. E quando a decisão for tomada, ela sempre vai sendo percebida como um resultado negativo, por lente negativa. Então a percepção, de fato, é que a democracia não está produzindo efeitos positivos”, avalia.







