No Mês da Consciência Negra, o professor Roberto Alves (@robertoalvespsicologo), presidente do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) da Unievangélica, faz uma reflexão sobre o racismo no país e os desafios para a construção de uma sociedade mais igualitária. Cientista social e também psicólogo, ele aborda o apagamento histórico da população negra, a falta de representatividade nos espaços de poder, os limites da ideia de que a miscigenação torna o país menos racista e o papel da educação, da família e das instituições no combate ao preconceito. Leia a seguir.
Anápolis Diário – O Mês da Consciência Negra costuma trazer o debate sobre racismo para o centro das discussões. Mas o que deveria mudar na forma como a sociedade lida com o racismo durante os outros 11 meses do ano?
Roberto Alves – O Novembro Negro suscita questões que nos atravessam, sobretudo nós, pretos e pardos. Precisamos de uma consciência social, política e cidadã sobre a população negra. Não basta dizer “tenho um amigo negro”. Há monumentos sobre o Holocausto em vários países, e as pessoas se sensibilizam. A escravização de africanos não desperta igual sensibilidade. Em Anápolis, a homenagem a uma personalidade negra em um viaduto gerou discussão. Nelson Mandela é merecido, indiscutível, mas também temos Zumbi dos Palmares. Cadê o nome dele em algo grande na região Centro-Oeste ou em outros centros do país?
AD – Quais são as formas mais silenciosas e naturalizadas de racismo?
RA – São diversas, sobretudo as veladas e as ausências. Igrejas evangélicas pentecostais reúnem muitas pessoas pretas, especialmente nas periferias, mas elas estão ausentes das lideranças dos grandes ministérios. Isso também ocorre no Judiciário e na política. Admiramos casarões e ruas de pedra em Goiás e Pirenópolis, mas quem construiu tudo isso? A história de quem colocou a mão na massa é silenciada. Três pontos precisam sair do silêncio: Zumbi dos Palmares, a mecanização das lavouras e os quilombos. A mecanização me emociona. Meus pais vieram de pau de arara das lavouras de Paraúna, expulsos pela chegada das máquinas. Foram para Goiânia em busca de trabalho e morreram sem serem alfabetizados. Meu pai foi servente e guarda noturno; minha mãe, lavadeira. Os filhos eram engraxates e vendiam geladinho ou jornal. Sou o único dos sete irmãos com curso superior. Tenho uma irmã com ensino médio e o restante só estudou no que chamávamos de ginásio. Falo da minha família para reforçar que as pessoas não conhecem a história da maior população do país. Esse silêncio sobre a história do povo negro é devastador.
AD – Por que pessoas negras ainda enfrentam barreiras para chegar à liderança e a melhores remunerações?
RA – O impacto da migração de trabalhadores pretos do campo continua até hoje. As pessoas com menos condições financeiras são, em sua maioria, pretas e pardas. Muitos trabalham de dia e estudam à noite, chegam com defasagem no ensino e têm mais dificuldade para entrar nas universidades públicas. Na minha época era uma tortura escrever sobre as férias: enquanto alguns contavam que tinham ido à Disney, outros tinham trabalhado para levar dinheiro para casa. Depois dizem que é “mimimi”. Muita coisa melhorou com as cotas, o Estatuto da Igualdade Racial e a criminalização de práticas racistas. Atuo há quase três décadas na Unievangélica, sou professor universitário e coordeno programas de ações sociais. Realizamos o desfile da beleza negra, por ocasião da Semana da Consciência Negra, exatamente para valorizar isso. O negro precisa sentir que ele é bonito e isso tem um impacto, inclusive, no mundo corporativo. É um efeito que parece que é simbólico, mas não é. Ele tem um efeito, inclusive, econômico também.
AD – A ideia de que o Brasil é miscigenado e, por isso, menos racista, dificulta o reconhecimento do racismo?
RA – A miscigenação serve como discurso: “somos miscigenados, vivemos bem”. Isso permite dizer “tenho um amigo preto” ou “tenho um avô que foi preto”. Se tivesse contribuído para menos racismo, não teríamos o problema que temos hoje, nem as piadas que até pouco tempo estavam na televisão, nos programas humorísticos e nas canções. A miscigenação não nos tornou menos racistas.
AD – Qual é o papel da educação na formação de uma sociedade menos preconceituosa?
RA – A educação deve falar a verdade sobre Zumbi, a mecanização das lavouras e os quilombos. Meu pai só descobriu que poderia receber salário quando veio para a cidade. Na fazenda, trabalhava por comida e moradia. Isso é trabalho análogo à escravidão, e estou falando de 1956. É um engano achar que os impactos da escravização terminaram com a Lei Áurea, em 1888. Os quilombos e o movimento quilombola, cujo maior líder foi Zumbi, tiveram papel fundamental no fim da escravização. Isso não é contado na escola e deveria ser.
AD – Quais discussões sobre igualdade racial precisam ganhar espaço em Anápolis?
RA – Anápolis está entre duas capitais, tem pujança e cultura bairrista. Quem são os negros 100% anapolinos que dão nome aos prédios? Não tem. A Unievangélica me deu oportunidades: fui bolsista, fiz graduação e mestrado, criei minha família e implantei programas sociais, inclusive de igualdade racial, sempre com o apoio do reitor. São programas que existem há muito tempo na instituição e que hoje são exigências do MEC. Isso graças ao trabalho que desenvolvi e a oportunidade e sensibilidade da instituição. O poder público municipal também precisa dessas políticas relevantes, baseadas em dados científicos, não em vontades e benesses. Temos o Conselho Municipal da Promoção da Igualdade Racial, do qual sou um dos fundadores. O conselho fomenta e formula políticas, é forte, mas não executa. Falta ao Executivo um órgão específico, uma Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. Já passou da hora de Anápolis ter isso.
AD – Que mudança cada cidadão pode adotar para uma sociedade menos desigual?
RA – É preciso começar em casa, com as crianças, em famílias negras e não negras. Vejo que muitas pessoas, inclusive a minha família – já tenho sobrinhos-netos e sobrinhos-bisnetos – não têm consciência negra. Há outras instituições fundamentais além da escola e do mundo corporativo: a família e a igreja. As escolas chamam as famílias para discutir drogas, violência e desempenho escolar, mas raramente para falar de atitudes racistas e letramento racial. É preciso chamar os pais para essa conversa. A primeira formação vem da família; depois, da igreja. Quantas promovem atividades do Novembro Negro? Pouquíssimas. As religiões de matriz africana têm compromisso maior, embora também sejam vítimas do racismo religioso. Focamos na escola e esquecemos que a criança passa primeiro pela família e pela igreja.





