Anápolis é uma das cidades mais ameaçadas pelo provável Super El Niño deste ano. Um relatório da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad) colocou a cidade numa lista de 18 municípios goianos com maior risco hídrico.
A avaliação é que o município está localizado em uma bacia crítica, na qual a demanda é superior à disponibilidade natural nos períodos de seca. A análise é baseada, evidentemente, no histórico de cada região. Além de Anápolis, são citadas também Aparecida de Goiânia, Rio Verde, Cristalina, Trindade, Pirenópolis e Goiás.
O município, historicamente, enfrenta problemas de abastecimento na estiagem, sobretudo nos meses críticos de agosto, setembro e outubro. Neste período, o ribeirão Piancó, principal manancial de Anápolis, tem sua disponibilidade de água reduzida. Nos últimos anos, porém, investimentos na rede de captação de água bruta e na distribuição aplacaram este mal e a cidade evitou a falta d’água generalizada.
A alta probabilidade de um super El Niño, no entanto, reacende o alerta. Segundo a Semad, há 81% de chance da ocorrência de um fenômeno de forte intensidade no estado. Os sistemas de medição hidrológica e meteorológica do Estado apontam que a temperatura das águas do Oceano Pacífico Equatorial poderá registrar uma elevação de 2,2 °C, atingindo um patamar tecnicamente classificado como Super El Niño por superar o limite de 2 °C de anomalia térmica.
Para avaliar o risco, a pasta faz um trabalho de monitoramento e análise técnica conduzido pelo Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), que utiliza dados de operadores mundiais de medidas climáticas. O dado é baseado também em relatórios emitidos no mês passado pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA, ou Administração Oceânica e Atmosférica Nacional) e pelo Climate Prediction Center (CPC, ou Centro de Previsão do Clima), ambos dos Estados Unidos.
Para projetar a intensidade do fenômeno, a Semad realizou simulação climática de cenários análogos. O estudo aplicou a taxa de aquecimento observada no início do Super El Niño de 2023-2024 sobre o ponto de partida térmico registrado em maio deste ano.
Além dos dados oceânicos, o governo estadual analisa dados históricos de precipitação em Goiás. O estudo atual considerou o déficit de chuvas no último período hidrológico (outubro de 2025 a abril de 2026), relacionando a baixa recarga dos lençóis freáticos com a severidade esperada para a estiagem sob o efeito do El Niño. Embora agências internacionais como a NOAA tenham citado uma chance de 37% para um evento “muito forte” no final do ano, a Semad foca na alta probabilidade de o fenômeno já estar ativo e influenciando o clima no curto prazo, preparando o Estado para o pior cenário estatístico.
O documento da Semad detalha que, entre outubro de 2025 e abril de 2026, Goiás apresentou volumes de precipitação abaixo da média histórica na maior parte do estado, com destaque para o nordeste goiano, cujo déficit foi de 550 milímetros.
Em Anápolis, não houve grande diferença do último período chuvoso para a média histórica. No entanto, como as bacias são interligadas, o risco de desabastecimento não é desprezível. Segundo a titular da Semad, Andréa Vulcanis, a baixa pluviometria dificulta a recarga do lençol freático, o que impacta no volume dos rios.
A titular da Semad, Andréa Vulcanis, explicou que o monitoramento constante é o que permite a antecipação de crises. Na apresentação, ela afirma que “Goiás se prepara para esse período de secas de uma forma muito profissional” e que a expectativa de alta temperatura nas águas é o que faz com que a pasta “corra para poder fazer um planejamento adequado para enfrentar essa situação”. Ao POPULAR , Vulcanis ressalta que a Semad está consumindo os dados dos órgãos oficiais e trabalhando com as possibilidades. “É um trabalho de precaução e preparação. Estamos com tempo suficiente para nos preparar, caso ocorra o fenômeno”, afirma.
Ela reitera que o Estado de Goiás está preparado para as consequências previstas, que juntam escassez hídrica, seca prolongada e aumento de temperatura e do número de incêndios. “Temos equipamentos, investimentos foram feitos e estamos monitorando as previsões dia a dia”, diz. Segundo explica, entre o final de julho e o início de agosto é possível que as previsões deem mais clareza ao que vai ocorrer. “A apresentação é porque começaram a falar muito do El Niño e então estamos monitorando, mas independentemente do que ocorra neste ano, é muito claro que os ciclos estão menores. Tivemos um El Niño forte entre 2023 e 2024 e estamos falando nisso de novo.”
A avaliação da Semad é de que não haverá prejuízo se a seca for prolongada até outubro ou início de novembro, mas alerta. “Se não chover depois disso, já vai ficar difícil não ter escassez hídrica”, diz.
GESTÃO DE RISCO
A pasta montou uma estratégia integrada que envolve monitoramento em tempo real, fiscalização de captações e alocação negociada de água entre os usuários. O governo mantém um cadastro de barragens em propriedades rurais e planeja a abertura de comportas para verter água nos rios caso a vazão atinja níveis críticos, medida já aplicada em anos anteriores.






