A chuva registrada na primeira quinzena de junho em Anápolis superou em mais de quatro vezes a média histórica para o mês no município. Dados do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo) mostram que já são quase 40 milímetros acumulados – um recorde para a ainda parca série histórica do município.
A média histórica de pluviometria para junho em Goiás é de oito milímetros. Historicamente, junho e julho são os meses mais secos do ano na região. No entanto, em 2026 um conjunto de fatores, entre eles a influência do Super El Niño, causaram alterações.
“Não temos uma série histórica longa, bem construída em Anápolis, como temos em Goiânia, por exemplo, mas olhando para a história recente, podemos afirmar com certeza que este é o junho mais chuvoso na cidade também”, disse ao Anápolis Diário o gerente do Cimehgo, André Amorim.
Somente a chuva do último domingo (14) registrou 24,4 milímetros – bem abaixo dos 64 milímetros registrados em Goiânia – que bateram um recorde de quase 40 anos e estabeleceram na capital uma nova marca de pluviometria para o mês.
Ainda houve outros dois dias com chuvas consideráveis, perto ou na casa dos 10 milímetros, que levaram Anápolis ao patamar de quase 40 milímetros no mês tradicionalmente mais seco no município. Isso sem falar na cara de tempestade de verão a uma semana do início do inverno, que começa no próximo domingo (21).
Meteorologista e pesquisador do Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (Cempa-Cerrado), Angel Domínguez Chovert pontua a influência de ao menos três fatores nas tempestades ocorridas no fim de semana na região central do estado.
“Tivemos alta umidade vinculada aos rios voadores em cima de Goiás, favorecidos pela formação da frente fria. Além disso, há a presença de um sistema que denominamos cavado, que é uma área de baixa pressão localizada em médios e altos níveis da atmosfera, que favorece a ocorrência de tempestade. Adicionalmente, temos outro fenômeno, conhecido como oscilação Madden-Julien, que, dependendo de onde está, favorece ou não a ocorrência de chuva na região central do Brasil. E ele estava em um local que favorece”, disse.
Chovert aponta ainda que a combinação desses fenômenos é algo raro de se ocorrer, mas aponta que é normal a ocorrência desses eventos. Ele reforça ainda que as mudanças climáticas potencializam o registro dos eventos extremos. Além disso, destaca que o El Niño pode ter tido uma leve influência. “As condições do El Niño começaram a ser observadas a partir de abril e já temos um impacto na atmosfera. Mas há um tempo para isso ser observado. Em Goiás, o El Niño não teve uma influência significativa (nas fortes chuvas), mas pode ter tido um pequeno aporte”, cita.
Amorim, do Cimehgo, afirma que as chuvas foram consideradas atípicas diante do alto volume. “O que ocorreu em Goiás na primeira quinzena de junho deste ano é um evento meteorologicamente raro e climaticamente significativo: múltiplas frentes frias com penetração continental, rompimento do bloqueio do Cerrado e recrutamento de umidade amazônica — tudo isso potencializado por um El Niño ainda jovem, mas já modulando a circulação geral da atmosfera. Não é possível atribuir o evento diretamente ao El Niño, mas o contexto de aquecimento do Pacífico certamente contribuiu para tornar as frentes mais úmidas e com maior capacidade de penetração continental do que o esperado para a estação seca”, cita.
E O RESTO DO MÊS?
As raras chuvas de junho podem voltar a cair em Anápolis na próxima semana. Existe uma possibilidade de quase 40% de precipitação de até quatro milímetros na terça-feira (23), mas também pode chover na quarta (24) e quinta-feira (25), inclusive com risco de trovoadas – o que é mais incomum ainda longe do verão.
No entanto, especialistas não acreditam num fenômeno tão forte como aconteceu no último fim de semana, uma vez que deveria haver todo um alinhamento de fatores para fazê-lo prosperar.






