O Ministério Público do Rio Grande do Sul denunciou à Primeira Vara Estadual de Processo e Julgamento de Crimes de Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro o anapolino Sérgio Hajjar. Empresário conhecido na cidade, Hajjar é o representante do Porto Seco Centro-Oeste, empresa atualmente responsável pelo desembaraço aduaneiro em Anápolis.
O MP-RS denunciou Sérgio Hajjar pelos crimes de Associação Criminosa e Lavagem de Dinheiro no âmbito da Operação Expansionista, deflagrada em 16 de outubro de 2025. Na ocasião, o MP-RS cumpriu 30 mandados de busca e apreensão, bloqueou R$ 180 milhões das contas de 29 investigados e seis empresas.
Além de cidades do Rio Grande do Sul, foram realizadas ações do Gaeco – Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado – em Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Goiás e Bahia.

INVESTIGAÇÃO
O Ministério Público do Rio Grande do Sul identificou a prática de lavagem de dinheiro de recursos obtidos do “tráfico de drogas, roubos, estelionatos, receptações e outros crimes a eles conexos”.
“A investigação a princípio identificou que valores oriundos de práticas criminosas ocorridas no Rio Grande do Sul, com ênfase na região dos Vales do Rio dos Sinos e do Rio Paranhana, eram movimentados pelo sistema bancário por intermédio de contas da Empresa JS Distribuição”.
A empresa, que está em nome de um dos filhos de Sérgio Hajjar, é comandada pelo próprio empresário, segundo a investigação do MP-RS, através de uma série de procurações com plenos poderes. A empresa – localizada em Goiânia – atua na área de comércio de bebidas e atacadista de produtos alimentícios.
Ainda segundo a denúncia, a JS Distribuição já havia sido citada em outra operação, denominada “Astúcia 1”, na qual constavam informações acerca de depósito de R$ 1 milhão determinado por Antônio Marco Braga Santos, conhecido como MN. Ele seria – ainda segundo os investigadores – um dos líderes da organização criminosa “Os Manos”. MN está preso e, de lá, teria dado a ordem para o depósito para a conta da JS.

Os promotores destacam que quando realizaram a operação de busca e apreensão nos endereços ligados a Sérgio Hajjar encontraram documentos relacionados à Operação Astúcia e dados relativos às empresas ligadas àquela investigação.
SEM DISTINÇÕES
A denúncia do MP destaca que, com o aprofundamento sobre os “vínculos e movimentações da JS Distribuição”, identificou Sérgio Hajjar como “articulador de fato do empreendimento criminoso sediado no Estado de Goiás”, embora as empresas investigadas estejam no nome de outras pessoas ligadas ao empresário.
Mais ainda, os promotores apontam que a “lavanderia” empresarial não atuava somente para uma organização, mas, sim, para outras organizações criminosas “sem qualquer distinção”.
“A Empresa JS Distribuição Eireli centralizava esquema de lavagem de dinheiro de variadas origens, sem distinção entre grupos e organizações criminosas diversas, movimentando milhões de reais nesse ensejo”.

“As medidas investigatórias apontaram que o esquema criminoso utilizava operadores financeiros para dissimular a movimentação de valores ilícitos por meio de contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas “laranjas”, realizava movimentações financeiras de forma dinâmica, pulverizada e fracionada, em especial com depósitos em espécie”, reforça outro trecho da denúncia.
MOVIMENTAÇÃO
Aberta em 2015, a JS Distribuição tem capital social de R$ 100 mil e atendia no segmento de distribuição de água mineral e bebidas. Mas dois anos depois a empresa começou a apresentar movimentação financeira muito além do perfil.
“Entre 2017 e 2018, foram identificadas movimentações expressivas como créditos mais de R$ 14 milhões, dos quais mais de R$ 1 milhão eram provenientes do Rio Grande do Sul”, cita a denúncia.
Neste mesmo período, em outra conta bancária, foram movimentados mais de R$ 18 milhões. “Os créditos da JS Distribuição Eireli somaram mais de R$ 108 milhões, dos quais cerca de R$ 6,2 milhões foram direcionados para investimentos de natureza pessoal, e mais de R$ 8,9 milhões saíram da conta sem qualquer identificação dos destinatários”, atestam os investigadores na denúncia.
“A discrepância entre o faturamento declarado e o efetivamente realizado, somada ao volume movimentado nas contas bancárias da JS Distribuição Eireli e à capacidade patrimonial do grupo familiar que opera o esquema ilícito, indica a utilização da estrutura empresarial para ocultar a origem dos recursos”, concluem os investigadores do MP-RS.
RELAÇÕES EMPRESARIAIS
A denúncia identifica que Hajjar “exercia papel central na utilização da Empresa JS Distribuidora para a prática de lavagem de dinheiro, comandando suas operações”, através da procuração com plenos poderes de empresas em nome de seus filhos.
Uma delas é a Dantas Maia Empreendimentos. Localizada em Goiânia, a empresa atua no ramo imobiliário, com incorporação e construção de imóveis. A mesma Dantas Maia tem em seu quadro societário o advogado Said Vieira Borges, que vem a ser presidente e representante legal da EADI Anápolis, cuja razão social é Porto Seco Centro S/A.
Apesar da citação da procuração da Dantas Maia para Sérgio Hajjar, a EADI Anápolis e nem o advogado Said Borges são citados na denúncia. Sérgio Hajjar, por sua vez, é amplamente relacionado com a empresa aduaneira.
Além das ligações históricas com o empreendimento, Hajjar é quem atua politicamente nas demandas da empresa com o setor público em diversas esferas. Uma delas é no classismo. Sérgio Hajjar ocupa na Acia – Associação Comercial e Industrial de Anápolis – o cargo de “Diretor Adjunto para Assuntos do Daia”, sendo representante do “Porto Seco Centro-Oeste”.

OUTRO LADO
A reportagem do Anápolis Diário entrou em contato com Sérgio Hajjar para obter uma declaração sobre a denúncia do MP-RS. O empresário declarou estar em viagem e indicou o contato do advogado responsável pela sua defesa no caso. Ele foi contatado sobre a natureza da consulta, mas não deu qualquer declaração e nem mesmo retornou às mensagens enviadas. O espaço segue aberto para o posicionamento da defesa do empresário anapolino.






