A polarização política vai além das urnas e tem deixado marcas nas relações pessoais, provocando discussões, afastamentos e até rompimentos entre familiares e amigos. Com a chegada das festas de fim de ano, o desafio de conviver com opiniões diferentes ganha ainda mais relevância. Para entender como esses conflitos afetam a saúde mental e como reconstruir vínculos sem abrir mão das próprias convicções, o Anápolis Diário conversou com a psicóloga Yasminne Takeda.
Anápolis Diário – Acabamos de ver o final da terceira eleição presidencial consecutiva marcada por um acirramento profundo da polarização política. Mesmo depois de tantas experiências, parece que ainda não aprendemos a lidar com as diferenças?
Yasminne Takeda – Acho que uma das grandes dificuldades que nós estamos tendo é que as pessoas começaram a enxergar a política como parte de quem elas são. Quando alguém discorda da minha opinião eu não sinto apenas que a pessoa pensa diferente de mim, muitas vezes eu sinto que ela está questionando os meus valores, minha inteligência ou até mesmo o meu caráter. E aí a conversa deixa de ser política e passa a ser sobre quem está certo e quem está errado. Temos muita dificuldade de lidar com a ideia de que o outro pode pensar diferente e continuar sendo importante na nossa vida.
AD – Por que a política, que deveria ser um espaço de debate sobre ideias e projetos, acaba se tornando, muitas vezes, motivo de rompimento?
YT – Porque ela mexe com coisas muito profundas, envolve o que nós acreditamos, o que nós consideramos justos, os nossos medos, as nossas expectativas para o futuro e também as nossas frustrações. Então quando alguém muito próximo pensa diferente, isso pode gerar uma sensação ruim de estranhamento na gente. Mas existe uma diferença muito grande entre a gente discordar e desrespeitar alguém. O que eu tenho observado é que muitas relações não se rompem simplesmente porque as pessoas estão pensando diferente, mas porque elas não conseguem mais conversar sobre as diferenças sem se atacar. Então precisamos tomar cuidado para que uma divergência política não apague toda a nossa história com outra pessoa.
AD – Por que a diferença política é encarada como desvio de caráter por alguns?
YT – Nós temos uma tendência a acreditar que os nossos valores são os corretos. Então quando uma pessoa defende algo que a gente considera que é errado, começamos a pensar que ela também pode ser uma pessoa ruim. Mas nós precisamos fazer essa distinção. Uma coisa é você discordar de uma ideia, outra coisa é definir o caráter inteiro de uma pessoa. É claro que existem posicionamentos e comportamentos que a gente realmente precisa questionar, principalmente quando envolve desrespeito ou prejuízo às pessoas. Eu não estou dizendo que devemos aceitar tudo. Eu estou dizendo que precisamos aprender a argumentar sem transformar toda a nossa conversa num julgamento pessoal.
AD – Estamos nos aproximando das festas de Natal e Ano-Novo. Como se preparar emocionalmente para esses encontros após uma eleição acirrada?
YT – A primeira coisa é entender que ninguém vai resolver divergência política durante uma ceia de Natal. A gente precisa transformar os encontros em uma oportunidade de estarmos juntos e não de estarmos certos. E se nós já sabemos que aquele determinado assunto provoca conflito, podemos estabelecer limites antes mesmo de chegar nessa situação. Se alguém insistir, você não precisa entrar na discussão só porque foi provocado. Pode mudar de assunto, sair daquele ambiente, dizer que não prefere continuar a conversa. E também tem uma coisa muito importante: estabelecer limites. Limite não é tentar controlar tudo que a pessoa fala ou pensa, mas como agir diante da situação.
AD – Para quem já rompeu uma amizade ou está sem falar com um familiar por causa de divergências políticas, ainda é possível reconstruir essa relação?
YT – Acredito que é possível reconstruir essas relações, mas só quando entendermos que não precisamos necessariamente mudar a opinião do outro para nos aproximarmos. Às vezes o que precisa ser revisto não é aquilo que cada um acredita, mas é a forma como essas pessoas passaram a se tratar. Reconstruir uma relação não significa fingir que nada aconteceu. Precisa que os dois lados estejam dispostos e respeitem o limite de cada um. Às vezes a gente vai precisar reconstruir uma convivência mais distante, porém respeitosa. É importante compreender que recuperar esse vínculo não exige abandonar suas convicções, mas sim rever a maneira como você lida com aqueles que pensam diferente.
AD – As redes sociais parecem intensificar esse cenário, porque as pessoas estão constantemente expostas a notícias, opiniões e conteúdos que reforçam suas próprias crenças ou provocam indignação. Como essa exposição nos afeta?
YT – Acredito que precisamos olhar com bastante atenção para o tempo que passamos expostos a esse tipo de conteúdo. Essa exposição pode aumentar a nossa irritação, alimentar as nossas preocupações e deixar a pessoa emocionalmente sobrecarregada. Dependendo do que consumimos, podemos ter a impressão de que estamos cercados apenas por pessoas que pensam como nós ou por pessoas que consideramos nossas adversárias. E isso também chega nos nossos relacionamentos. Às vezes nós acabamos levando para dentro de casa uma irritação que começou em uma discussão com alguém na internet que não tem nada a ver. Então a gente precisa recuperar a capacidade de escolher o que nós consumimos e perceber como esse consumo nos afeta. Nem tudo que aparece na tela precisa da nossa atenção o tempo todo. Então cuidar da nossa saúde mental é também aprender a desconectar, a escolher aquilo que faz sentido ou não para mim.






