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“Não vale a pena nos reduzirmos a um duelo emburrecido de esquerda e direita”

Crítico ferrenho de Gustavo Gayer e com a promessa de levar ao Senado a técnica legislativa do ofício, Iure Castro sai da polarização e propõe 'novo STF'

Rafael Tomazeti por Rafael Tomazeti
03.07.2026
“Não vale a pena nos reduzirmos a um duelo emburrecido de esquerda e direita”
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Um dos maiores críticos do deputado federal Gustavo Gayer (PL), a quem considera um “parasita social” e classifica como “mentira ambulante” e “contradição da humanidade”, o procurador do Estado, Iure Castro (Cidadania), é um dos nomes que promete movimentar o debate da eleição para o Senado Federal em Goiás. Embora ainda pouco conhecido, ele carrega a bandeira da renovação, não foge de assuntos espinhosos e já apresentou proposta para um novo STF.

Leia a entrevista na íntegra:

 

Anápolis Diário: Como tem trabalhado para estruturar sua pré-candidatura?

Iure Castro: A pré-candidatura do Iure para o Senado foi muito diferente do que vimos. Sou uma pessoa comum, nunca disputei eleição. Venho com missão de demonstrar que não precisamos de uma estrutura político-partidária tradicional. Precisamos renovar a política. E essa pré-campanha foi absolutamente sozinha, sem padrinho político, remando contra a maré. Eu não tinha partido e fui recebido de braços abertos pelo Cidadania. Começamos sozinhos. A federação com o PSDB estava praticamente encerrada. Não tínhamos chapas e, faltando uma semana para as filiações, renovamos a federação e temos uma chapa com 57 nomes para estadual e 45 candidatos federal para escolher 18. Deus tem me abençoado muito nessa pré-caminhada. Não precisamos de padrinho. Temos que colocar a cara a tapa e ter fé em Deus. Estou muito feliz. Pontuamos baixo, mas 80% dos eleitores de Goiás não escolherem seus candidatos ao Senado. Faremos história. Sou o único que representa renovação política. Não tem nenhum candidato com o currículo que tenho. Vim de uma família humilde, analfabeta e carrego a vontade de fazer a mudança em Goiás. Do anonimato já pontuamos nas pesquisas.

 

AD: Uma candidatura ao Senado exige capilaridade nos municípios para ser competitiva. O senhor conseguiu apoio de prefeitos, vereadores ou lideranças locais ao seu projeto?

IC: Apoio de prefeitos é muito difícil para conseguir. Não tenho cargos, emendas ou estrutura de governo para abraçar, agasalhar uma prefeitura ou um prefeito, mas tenho recebido apoio de centenas de vereadores e vereadoras em Goiás. De forma voluntária. Isso me motiva muito a ir além. E como são duas vagas, tenho recebido carinho muito grande dos prefeitos e prefeitas e a grande maioria tem liberado sua base para me apoiar na pré-candidatura. São duas vagas. Boa parte das prefeituras está na base do governo Daniel Vilela e, mesmo assim, muitos autorizam que abraçaram meu projeto.

 

AD: O que o senhor considera que será determinante numa eleição para o Senado com tantos candidatos?

IC: É me fazer conhecido a maior dificuldade. Conto muito com a mobilização dos jovens, da advocacia goiana, do servidor público de Goiás. Conto com esse trabalho de formiguinha, as pessoas mostrando para amigos e familiares o nosso nome e as nossas ideias. É a única candidatura que representa Goiás. Não tem vício político. Isso me permite a falar de assuntos que muitos não conseguem.

 

AD: Quais as suas principais bandeiras?

IC: Meu projeto é dar critérios objetivos para destinação de emendas, ter regras claras e transparentes, para fazer com o prefeito não fique mais com o pires na mão. O dinheiro é público e tem que chegar na casa e na necessidade de cada pessoa. Apresentei, junto com o senador Vanderlan Cardoso (PSD) a PEC que faz uma reestruturação profunda no poder judiciário. Reestruturarmos o STF, deixando-o menos politizado. A proposta é ter dois terços de juízes de carreira, com um mínimo de 20 anos de experiência e 50 anos de idade. Uma vaga para a advocacia, outra para o Ministério Público Federal e outra para os MPs estaduais. Um mandato de 12 anos, com recondução proibida. Metade das vagas para as mulheres. Trago uma proposta de reforma política de enxugar o parlamento. Reduzir para quatro o número de deputados federais por unidade federativa e um senador por estado. Isso resultaria em quase R$ 60 bilhões de economia por ano. O sistema como está não elege o mais votado, quem efetivamente ganhou as eleições. Dentro dos critérios partidários da eleição proporcional, é absurdo que um candidato tenha 40 mil votos e eleja-se um que teve 17 mil.

 

AD: Um tema que está em voga é o impeachment de ministros do STF pelo Senado. O que pensa sobre?

IC: É uma utopia brasileira falar nisso enquanto 50% do Senado responde a processos judiciais na Suprema Corte. O Senado teria legitimidade moral para tocar o impeachment de ministro? Eu proponho tirar todos, mas não do dia para noite, dentro de critérios de transição. Essa PEC que proponho trará, nos próximos anos, seis ministros oriundos da magistratura brasileira, aprovados em concurso público, que conhecem a necessidade de cada comarca. O critério passa a ser técnico, não político. Coloco critérios de impedimento para não ter troca de favor. Ministro nomeado pelo presidente da República não pode julgar causas do presidente da República. Se for oriundo de partido, não pode julgar ações partidárias. Não pode julgar ações de senadores que contribuíram, direta ou indiretamente, para a sabatina. Precisa trazer para a nomeação um critério de conformidade e integridade. Não pode ser troca de favor. Apesar de ter muitas restrições ao Bolsonaro, não acho justo o STF tê-lo julgado com alguém que foi advogado de Lula. Hoje o prejudicado é Bolsonaro, mas no passado Lula foi prejudicado. Dentro de um critério de disfunção constitucional, o STF disse que era incompetente para julgá-lo e ele foi julgado em Curitiba, com um combinado entre órgão acusador e juiz, para impedi-lo de disputar as eleições. Eu defendo que o STF não julgue mais CNPJ ou CPF. Tem que discutir teses constitucionais de aplicação objetiva. Não vou discutir a causa da Maria e do José, mas a tese de forma objetiva. O STF virou praticamente um Tribunal de Justiça dos estados.

 

AD: O senhor se coloca como alternativa à polarização e ao discurso bolsonarista que predomina em Goiás?

IC: Não vale a pena resumir nossa vida política de um duelo emburrecido de esquerda e direita. Para fazer política precisa ter capacidade de diálogo e conversar com quem pensa diferente. Essa briga não constrói um país mais justo e fraterno, que é o que todos nós queremos. A gente perde representação com esse discurso de ódio. Esse duelo emburrecido não melhora a vida de nenhum brasileiro. Há pessoas valiosas na esquerda e na direita e quem não presta dos dois lados. O bom jogador joga em qualquer time. E o péssimo afunda até a seleção brasileira. Não há nenhum currículo melhor que o meu na disputa para o Senado. Sou o melhor candidato. Represento o que precisamos: técnica legislativa. Não precisamos de videozinho nas redes sociais.  Não mudaremos assim a vida dos brasileiros que agonizam por socorro. Que a ideologia fique no bolso e o sentimento de humanidade apareça e coloque o brasileiro como prioridade absoluta.

 

AD: Uma das figuras às quais o senhor é mais crítico é Gustavo Gayer. Qual a origem destas críticas?

IC: Primeiro por uma questão pessoal. Quando era criança, uma vizinha recebeu uma ligação – não tínhamos telefone – e foi em casa nos dizer que minha mãe tinha morrido num acidente de trânsito. O motorista estava bêbado. Depois a localizamos e soubemos que ela estava internada e quem tinha morrido era uma tia. Tia Suzana morreu e deixou uma filha de 4 anos sozinha. Era mãe solteira. Isso marcou muito minha infância. Com 8 anos eu descobri a importância da responsabilidade em todos os seus atos, mas principalmente quando dirige um veículo. Gayer tentou por muitos anos esconder a história de que ele furou sinal, fez racha na rodovia, não atendeu aos apelos para que parasse e três jovens morreram, além de uma quarta pessoa que ficou tetraplégica e nunca foi procurada por ele. Não foi um caso isolado. Depois foi pego dirigindo bêbado em Goiânia noutro acidente. Quando analiso a vida política, pergunto: qual foi o trabalho que ele entregou para Goiás e o Brasil? Essa história de alguma forma o marcou e ele não fez nada sequer para aprimorar nas leis de trânsito para impedir que mães e pais enterrem seus filhos. Você não o vê produzir políticas públicas, um vídeo dele assumindo o erro e fazendo um apelo para que as pessoas não dirijam depois de beber. É uma pessoa que, mesmo vivenciando essa tragédia, na pandemia ganhou dinheiro monetizando fake news na internet. É um parasita social. Não tem responsabilidade social e empatia afetiva. Se tivesse, teria feito muita coisa diferente. É um excelente animador de palco. Quando olha no plano concreto, não fez nada efetivo para o povo de Goiás. Não é o único culpado pelos problemas, mas é quem mais aponta o dedo para chamar de ladrão e corrupto. E foi alvo da PF por desvio de dinheiro público. É isso tipo de gente que vamos colocar no Senado?

 

AD: Vocês têm travado uma verdadeira cruzada nos tribunais. E os processos, em suma, são movidos por ele contra falas suas, embora Gayer se coloque como paladino da liberdade de expressão. Considera uma contradição da parte dele?

IC: Gayer é uma mentira ambulante. É uma contradição da humanidade. Viveu uma tragédia e na pandemia ganhava dinheiro com mentiras enquanto as pessoas enterravam seus entes queridos. Ele não faz absolutamente nada do que prega. Ajuizou sete ações sobre mim para me impedir de falar sobre coisas que estão documentadas. Não serei visto nunca a levantar uma mentira contra um ser humano. O Gayer que diz que estamos vivendo, por exemplo, uma ditadura do judiciário porque não podemos nos expressar, ajuizou sete ações contra mim para me impedir de falar o que ele fez. Ele perdeu as sete ações judiciais. Ele foi chamado de bêbado, assassino e corrupto e o tribunal disse que tudo isso tem amparo judicial. Não fui eu que criei. Jamais iria criar adjetivações que não comportassem o encaixe na própria biografia e no próprio legado. Jamais trabalharei como ele.

 

AD: A chapa do PSDB/Cidadania terá candidaturas avulsas ao Senado ou trabalham com apenas duas?

IC: A conversa inicial é de que teremos duas candidaturas apenas ao Senado, mas é claro que isso está sob coordenação do Marconi Perillo e respeito a liderança dele.

 

AD: O PDT pode integrar a chapa PSDB/Cidadania?

IC: Se o PDT vier, será muito bem-vindo, principalmente por ser o Kowalsky (Ribeiro). Da minha parte, o  Cidadania vê com excelentes olhos. Essa conversa de o PDT vir foi um assunto que eu mesmo tratei com o próprio Romário Policarpo, lá atrás, quando o Kowalsky assumiu o PDT. De lá para cá fico feliz por saber que essa conversa tenha andado. Se houver essa autorização, da minha parte o Kowalsky terá todo o apoio possível. É um grande profissional, tem um conhecimento ímpar.

 

AD: Como analisa a disputa para o governo de Goiás?

IC: O Cidadania apoia 1000% a caminhada de Marconi Perillo. Ele governou o estado por quatro vezes, tem muita experiência executiva e legislativa. Tem uma história imensa em Goiás. Estaremos com ele, apoiando e dando o espaço necessário para fazer com que ele volte ao governo. Em relação às pesquisas há um distanciamento muito grande do que as pessoas pensam e aquilo que é publicado. No plano prático, o que percebemos é que caminhamos para um segundo turno e no segundo turno, não tenha dúvida, Marconi sairá vitorioso.

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