Por Henrique Morgantini
Do “Tinho” eu lembro das espinhas dos 15, 16 anos. Foi com este nome e aparência que o conheci. O pai, líder do Executivo na Câmara, respirava e comia o que respira e come até hoje: Política. Ninguém conhecia o espirito do Legislativo como o – agora – velho Amilton. E duvido que isto tenha mudado passados 25 anos. O menino cruzava a sala de casa num passo tímido-acelerado. Não era desengonçado, era adolescente.
Um instante muda a sua vida. E nestes arranjos que fazem do existir uma surpresa diária, completou o nome, virando Amiltinho e foi sacado a ser político. Improvável. Ele não era o pai. A irmã, sim, despojada, inata. Ele, tímido, a língua enrolada. O improvável, muitas vezes, é questão de tempo.
Virou político eleito. Aprendeu e tomou gosto. Tornou-se hábil, esperto, matreiro, de repertório amplo em abordar, em conversar, em negociar, em ceder e avançar.
Presidente da Câmara como foi o pai, evoluiu a linhagem. Veio a vitória a deputado estadual. Veio um rompimento do grupo político que integrava e tinha tudo para ser traumático. E veio nova surpresa: achavam que, desgarrado de seu grupo, iria perder. Foi reeleito à Alego com folga, chamando a atenção. Ele estava certo, os outros tinham errado. Eu me incluo entre os outros.
Já não era mais Amiltinho, tampouco apêndice de outro projeto. Em 2023, Amilton Filho se rebatizava politicamente: tornava-se dono do próprio grupo, tinha ele mesmo um projeto.
Em 2026, Amilton estava no começo de uma subida que parecia ser íngreme. Alguns lamentaram comigo, “que triste, estava no auge”. Discordo. Não estava. Este não era seu auge e parecia ainda longe de sê-lo. Afinal, o caminho parecia amplo e longo, e havia muito ainda a percorrer. Trabalhava para uma votação estrondosa e, desta vez, mais que chamar a atenção, entrar na disputa pela Presidência de Alego. Era um objetivo de real alcance.
Um instante muda a nossa vida. A madrugada daquele sábado transformou-o num destes gigantescos “e se” que a crônica política é boa de produzir e sustentar.
E se Adhemar tivesse dado outra resposta no debate de 1992, antes de Wolney levantar um papel para a tela
E se Ernani de Paula não tivesse brigado com Marconi Marconi Perillo em 2002?
E se Gomide não tivesse saído da prefeitura em 2014?
E se houvesse mais uma semana de campanha para Frei Valdair em 2004?
E se a eleição de 2020 não fosse cortada pela Covid?
A estes enigmas locais soma-se – agora e para sempre – o nome de Amilton Filho. E se ele fosse o mais votado? E se fosse presidente da Alego? E se um dia disputasse a prefeitura?
Eu já o assessorei, já exerci jornalismo colocando lupa sobre seu mandato, e já o vi correndo apressado pela sala da Dona Marlene. Às vezes fomos próximos, noutras apenas conversávamos acidentalmente aqui e ali. Nunca deixamos de ser cordiais, Sempre levamos em conta a opinião um do outro. Relações de longo termo são erigidas também com desalinhos e desacertos.
Instantes são capazes de mudar a nossa vida. Alguns mudam a vida de milhares de pessoas. Aquela madrugada de sábado mudou o rumo de uma cidade inteira.
O legado material de Amilton Filho pode ser lido na reportagem especial desta edição. Já o legado imaterial de Amilton Faria Filho a partir de sua partida precoce e antecipada será este: ser alçado a sempre ser um ponto de inflexão e dúvida de como a vida e a política seriam se aquele começo de sábado não tivesse sido o fim.
Até porque, se observarmos com o olhar correto, não foi.
E nunca será.






