Enquanto Anápolis testa uma iniciativa inédita de transplante de árvores adultas – o que evita que os espécimes de décadas de desenvolvimento e saudáveis sejam simplesmente mortos – o município volta a discutir o Plano Diretor com implicações diretas para o meio ambiente. A cidade está longe de ser uma referência em arborização e cuidado com a natureza, mas não por falta de arcabouço legal.
O ambientalista Antônio El-Zayek, uma das referências nacionais sobre drenagem e Soluções Baseadas na Natureza (SBNs), aponta que o município tem uma das legislações mais completas rumo à sustentabilidade. Falta, porém, colocá-la em prática.
Segundo ele, “Anápolis tem um bojo de lei que a prepara para as mudanças (climáticas e ambientais). Já temos previsão das SBNs no Plano Diretor, a macrodrenagem feita por percolação, o programa Pró-Água, um programa de recuperação de nascentes”. El-Zayek define a cidade como “legalmente pronta” para uma nova forma de tratar o meio ambiente.
Um dos grandes exemplos de sustentabilidade e respeito ao verde, em cidades do porte de Anápolis, é Maringá. O município do norte paranaense é internacionalmente reconhecido pela alta arborização urbana, com mais de 150 mil árvores nas vias públicas e cerca de 26 m² de área verde por habitante. A cidade detém o título de Tree City of the World (Cidade Árvore do Mundo) pela FAO-ONU e possui o melhor saneamento do Brasil.
Para El-Zayek, “Anápolis não é a Maringá do Cerrado porque não quer”. O ambientalista aponta que nós já temos estrutura para esse crescimento ambiental. “Anápolis precisa dar um passo à sustentabilidade. É premente”, afirma.
REVISÃO DO PD
O Plano Diretor passa em 2026 por um processo de revisão. Além dele, todo o arcabouço legal que rege o desenvolvimento do município será atualizado – de leis de trânsito a ocupação de solo. Por isso, El-Zayek vê o momento como ideal para recolocar o meio ambiente na pauta.
Na avaliação do ambientalista, o corpo técnico que atua no diagnóstico de problemas e proposição de soluções é um dos melhores do país. Ele aponta que, embora a legislação municipal seja boa, talvez seja a hora de ela avançar da recomendação para a determinação em relação a aspectos do cuidado com o meio ambiente.
“Talvez a lei pudesse afunilar para que se obrigasse determinas situações, como as SBNs, a drenagem por percolação. Precisamos criar uma educação ambiental urbana. As pessoas ainda acham que folha seca é sujeira. Temos que clarear essas leis”, disse.

O ambientalista também avalia que a criação de fomentos também seria importante, como a outorga onerosa para garantir que áreas de proteção ambiental que pertencem a figuras jurídicas privadas, de fato, cumpram este fim. E, claro, ampliar a participação popular via conscientização. “As empresas aqui são parceiras. É preciso envolver a comunidade nesse sentimento de pertencimento”, frisa.
ÁGUA
Uma das grandes preocupações do ambientalista é a segurança hídrica. Anápolis tem um histórico de falta d’água, que foi minimizada nos últimos anos, mas não deixou de ser um fantasma. Segundo ele, a disponibilidade de água potável para um futuro próximo depende de uma reabilitação ambiental.
“Temos muitos problemas com água. A gente corre risco de ficar sem água. Enquanto não drenar por percolação, recarregar lençol freático, estamos vulneráveis. Construir uma represa do Piancó seria paliativa, pois o corpo de água é raso. Dependemos da água do Capivari, que pode secar. Enquanto cidade precisamos pensar numa reabilitação ambiental do município como um todo”, aponta.
Entre as tecnologias que já estão em uso no município e provaram-se eficientes para atender drenagem e recarga do lençol freático está a implementação de jardins de chuva. As árvores nativas recuperam, através deles, sua função de levar água para o subsolo e, assim, completar o ciclo da água.
“Que peguemos as partes que são florestáveis, jardins que passam a ter muito mais que uma função estética. Ele drena água, é nicho de polinizados e fauna urbana. Temos que pensar no município como um todo, falar de saneamento rural, drenagem e reflorestamento, sempre com espécies nativas”, ressalta.
Com o Plano Diretor, El-Zayek espera que o município possa avançar na defesa de soluções ambientais eficientes, mas destaca que é preciso ter vontade política. “Anápolis tem muita coisa bacana. E normalmente faz-se um plano bacana, vai para a mesa do prefeito, os empresários dão palpite e mudam muito. Vai para a Câmara e aí vira uma colcha de retalhos que ninguém entende. É importante o prefeito trabalhar para não desfigurar o que os técnicos constroem”, avalia.





