O vereador Rimet Jules (PT) usou a morte de uma bebê de oito meses como trampolim para fazer ataques políticos à gestão municipal durante discurso na tribuna, na sessão plenária desta quarta-feira (16). Em sua construção retórica, Rimet atribuiu a morte ao “descaso e à negligência” da gestão municipal. “Infelizmente, ao que tudo indica, ela foi vítima da negligência e do descaso da administração municipal na saúde pública”, sentenciou o parlamentar.
A escolha do tema gerou reação imediata de diversos vereadores, que contestaram o uso do caso como instrumento de debate político na Câmara Municipal. Presidente do Poder Legislativo, Andreia Rezende (Avante) solidarizou-se com a família, que estava presente à sessão. “A família ter de passar por esse tipo de discussão com viés político é um novo luto e uma nova agressão”, afirmou.
EXPERIÊNCIA PESSOAL
Visivelmente emocionado, Jakson Charles (PSB) relatou a experiência pessoal vivida em 2004, quando perdeu um filho com 30 dias de vida em decorrência de uma cardiopatia. “Esta fala é de uma baixeza moral e de uma irresponsabilidade absurdas”, disse o parlamentar. “O vereador usou a morte para fazer politicagem sem ter um único laudo e já atribuiu culpas a este ou àquele”, rebateu.
Dirigindo-se aos pais, Charles classificou o episódio como uma “barbaridade”. Em sua réplica a Jakson Charles, o vereador Rimet Jules endureceu o tom ao responder ao relato pessoal do colega. “Não me comove o pranto de quem é ruim”, disse, citando o verso da canção “Tendência”, de Jorge Aragão e Ivone Lara.
Vice-presidente da Câmara Municipal, José Fernandes (MDB) classificou a escolha do tema como “imprudência e oportunismo”. “Quando eu escuto frases como ‘esses exames não são verdadeiros’, talvez seja uma imprudência ou oportunismo, ao desmerecer a dor de quem está envolvido”, disse o emedebista, referindo-se a uma afirmação feita por Rimet, sem nenhuma prova, sobre a veracidade de um possível diagnóstico que descartou meningite como possível causa da morte.

O CASO
A bebê, cujo nome será omitido em respeito à família, deu entrada na UPA Pediátrica de Anápolis. Segundo o vereador Rimet Jules, a paciente “não teve diagnóstico adequado e correto”. “Seu estado de saúde se agravou e ela foi transferida — pasmem os senhores! — para a cidade de Pirenópolis. Precisou ser transferida para uma cidade bem menor porque, aparentemente, a nossa cidade não tem estrutura”, narrou.
A bebê morreu no mesmo dia da transferência. Ainda segundo o vereador, o Instituto Médico Legal teria, supostamente, impedido o velório em caixão aberto diante da suspeita de meningite. “Os portais da cidade disseram que essa possibilidade já estava descartada, o que não é verdade”, declarou o parlamentar.
A narrativa de Rimet foi questionada por Jakson Charles com base em duas informações. A primeira é que, segundo apuração feita junto à Secretaria Municipal de Saúde, a bebê estava com o cartão de vacinação em dia e, portanto, imunizada contra a meningite, doença apontada por Rimet como possível causa da morte. Ainda segundo ele, os exames estariam “mentindo”.
REGULAÇÃO
Outro ponto questionado diz respeito à transferência da paciente. A decisão pela transferência partiu da regulação estadual. Ao ser atendida pela UPA, que é uma unidade de emergência, houve a decisão técnica de inserção da paciente na regulação estadual, responsável pelos casos de alta complexidade.
“Ela foi transferida para uma unidade em Pirenópolis por decisão do sistema estadual, que é regionalizado, e não pela prefeitura. Mas, quando eu tiver em minhas mãos o resultado da investigação, acho pertinente atribuir responsabilidades. Apontar culpados sem saber quem são é falta de respeito”, finalizou Jakson Charles.





