Titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Anápolis, a delegada Aline Lopes mantém seu perfil ativo no Instagram (@delegada_alinelopes) com orientações para pais de como proteger seus filhos de agressores no mundo real e virtual. Ela evidencia que a comunicação é fundamental em um mundo que cada vez mais promove o isolamento através das telas de celular. Aline defende o diálogo, mas também o controle parental na internet para as crianças. Sobre o processo eleitoral, diz que a proteção da criança precisa ser prioridade o ano inteiro e não só em época de campanha. Leia a seguir entrevista concedida pela delegada ao AD.
Anápolis Diário – Qual o principal conselho que a senhora dá para os pais que querem proteger seus filhos?
Aline Lopes – Conversem com seus filhos, de verdade e todos os dias. A criança que tem diálogo em casa conta quando algo acontece. A que tem medo de apanhar, de ser culpada ou de decepcionar a família se cala, e o agressor conta justamente com esse silêncio. Ensinem desde cedo que o corpo é dela, que existem partes que ninguém pode tocar e que segredo com adulto não existe. Ela precisa saber que pode contar qualquer coisa e que vai ser acreditada. E acerca da internet, façam controle parental, controlem o acesso, tempo de tela e tipo de conteúdo que seus filhos consomem, sempre alertando sobre os riscos que o mundo virtual oferece.
AD – Qual o tipo de caso mais frequente que chega à DPCA de Anápolis no dia a dia?
AL – O que mais chega é o estupro de vulnerável e crimes sexuais em geral, tanto o abuso dentro de casa quanto o que acontece pela internet. Também recebemos muito caso de violência doméstica que atinge as crianças, maus-tratos e conflitos de família com reflexo para o filho. E o que a gente percebe é que o abuso quase nunca acontece de longe: acontece onde a criança deveria estar mais segura, praticado por alguém de confiança, alguém que tem livre acesso à criança.
AD – Quanto a esse perfil do abusador, geralmente alguém próximo da família. Qual deve ser o sinal de alerta para os pais?
AL – Mudança de comportamento. A criança que era comunicativa e fica retraída, que passa a ter medo ou resistência de ficar com determinada pessoa, que regride, volta a fazer xixi na cama, por exemplo, que tem alteração no sono, no rendimento escolar ou no apetite, ou que demonstra conhecimento sexual incompatível com a idade. Outro sinal é a pessoa que cria muita exclusividade com a criança, dá presentes demais e procura ficar sozinha com ela. Desconfiar não é acusar. É estar atento. E quando a criança falar, acredite, escute com calma e procure a delegacia.
AD – A senhora tem feito um trabalho de orientação aos pais nas redes sociais. Como tem sido a receptividade disso?
AL – Tem sido surpreendente. Muita mãe e muito pai me procura, manda mensagem, conta situações e tira dúvidas. As pessoas querem saber como agir, como evitar. Também percebo que depois de um conteúdo, aumentam as denúncias e as conversas em família. Isso me mostra que informação protege. Ser lembrada como uma voz de proteção às crianças e adolescentes é muito gratificante.
AD – Na opinião da senhora, com qual idade uma criança deve acessar a internet?
AL – Não existe uma idade mágica, o que existe é a forma de acesso. Criança pequena, só com adulto ao lado, com tempo controlado e conteúdo apropriado. Rede social, na minha opinião, não deveria vir antes dos 13 anos, que já é a idade mínima das próprias plataformas, e mesmo depois disso precisa de supervisão, com perfil fechado, controle de chat, senhas conhecidas pelos pais e celular fora do quarto na hora de dormir. O que mais me preocupa é a criança sozinha, de porta fechada, conversando com desconhecidos. Muito abuso começa ali.
AD – Nesses anos como delegada, qual caso mais chocou a senhora?
AL – Cada caso marca de um jeito, e é difícil escolher um. O que mais me choca não é um caso específico, é a repetição de um padrão: a criança que sofreu por muito tempo, perto de pessoas que poderiam ter percebido, e só falou quando teve alguém disposto a escutar. Isso me faz entender por que o nosso trabalho de prevenção importa tanto. Costumo dizer que, infelizmente, o pior caso é sempre o próximo. Mas, recentemente, tivemos um caso em que uma menina, após contar sobre o abuso que vinha sofrendo há muito tempo por um familiar, foi desacreditada pela família, o que permitiu a continuidade. Após esse silenciamento, ela mesma procurou se salvar, guardando material biológico do suspeito após mais um abuso. Isso fez com que o caso chegasse à nossa delegacia, e a partir daí o abusador foi preso e, recentemente, junto com os familiares que se omitiram, foram condenados.
AD – Estamos na reta final das eleições gerais. Os políticos souberam tratar do tema da proteção da criança e adolescente nas campanhas?
AL – A proteção da criança precisa ser prioridade o ano inteiro e não só em época de campanha. Ela depende de investimento em estrutura, capacitação, atendimento especializado e prevenção. O que eu espero de quem for eleito é que olhe para isso como política de Estado e que a rede de proteção funcione de verdade.






