Há quinze anos visitar o Centro era um hábito quase diário para um percentual elevado de anapolinos. Lá estava concentrado o comércio, há oferta de serviços e muitos outros atendimentos de ordem burocrática. Era quase obrigatório passar por lá pelo menos semanalmente. Hoje, essa não é mais uma realidade para parcela significativa dos moradores da cidade.
A nova dinâmica econômica descentralizou o comércio. O varejo, antes concentrado no Setor Central, agora está presente no Jundiaí, na Jaiara, no Recanto do Sol, no Bairro de Lourdes e em tantos outros bairros. A tecnologia trouxe o comércio eletrônico. Mais barato e prático, o serviço que deixa a compra na casa do cliente desmobilizou quem antes se deslocava para as compras.
E, na visão da prefeitura de Anápolis, o coração da revitalização do Centro é justamente a dinâmica econômica e de moradia. “É um tema que não envolve só obras. Há outras discussões, inclusive de Plano Diretor. A revitalização tem sido discutida com a CDL (Câmara dos Dirigentes Lojistas) e Acia (Associação Comercial e Industrial de Anápolis) porque, mais do que obra, envolve incentivos. A revitalização faz parte do setor privado”, resume o secretário de Obras, Habitação, Planejamento Urbano e Meio Ambiente, Thiago de Sá.
Diante da reconfiguração do mercado, o que a prefeitura quer é atrair empresas do setor de serviços. Salões de beleza, barbearias, de consultoria, de tecnologia, de saúde, de educação. A avaliação é que somente com a tomada do Centro pelas prestadores de serviço a vida voltará à região.
“Hoje o varejo não é mais presente, não vem para o Centro. A gente viu algumas lojas fechando. A gente sabe que é o serviço que atrai gente para o Centro. É nesse sentido que temos trabalhado”, destacou Sá.
E de que modo a prefeitura quer atrair esse segmento? Com incentivos fiscais. O secretário revelou que a administração já elaborou uma minuta de um projeto de lei para reduzir – ou até eliminar – a tributação para empresas deste tipo que se instalem no Centro da cidade. Antes de enviá-lo à Câmara, no entanto, a prefeitura aguarda a conclusão dos estudos sobre o Plano Diretor e os demais componentes do arcabouço legal sobre urbanização e mobilidade – que serão revistos em conjunto.
Outro eixo da revitalização é oferecer habitação e atrair moradores para o Centro. Estudos em outras cidades brasileiras que passaram pelo processo de perda de relevância da região central mostraram que a moradia traz nova vida – amplia a sensação de segurança, atrai empresas, investimentos públicos.
Neste ensejo, o município também tem assinalado com a possibilidade de dar incentivos à construção de moradias. Ainda não se sabe como, mas uma das medidas avaliadas é aproveitar o fato de que, no Centro, pode-se construir em até 100% do terreno, diferente dos bairros residenciais, onde 30% deve ficar livre. Outro aspecto, aponta o secretário, é apostar numa mudança de uso de prédios comerciais abandonados.
“A gente tem que trazer incentivos para habitação, para as pessoas começarem a construir habitação nesses locais, porque tem muitos prédios comerciais que não vão ser utilizados mais. Não tem essa demanda”, frisa. “Na mudança de lei já vai vir a capacidade de construções mais modernas, mais altas nessa região”, revela.

“Já foram apresentadas algumas propostas de projetos para aquela região próxima ao terminal, para moradia popular. Então vai ter também essa conversa com o setor produtivo, no sentido que aquilo pode ser um bom negócio à medida que se revitaliza um centro bem focado, o entretenimento vai estar ali, a infraestrutura já está presente. Portanto, é necessário investir”, ressalta.
OBRAS
No que concerne às obras de infraestrutura, a prioridade é drenagem e saneamento. A tubulação sob as ruas do Centro é antiga e não comporta o volume de água das chuvas – o que amplia risco de inundações em dias de alta pluviometria. Outro ponto que a prefeitura mira é combater as ligações clandestinas de esgoto. Tudo isso depende de um acerto de calendário com a Saneago, responsável pelo serviço. Depois, a administração passa ao recapeamento das vias.
“Estamos falando com a Saneago para que no próximo ano a gente faça a drenagem nova. Ali tem um problema sério de drenagem, a água empoça e a rede de água e de esgoto ao mesmo tempo”, aponta. O secretário destaca, porém, que as obras devem ser paulatinas para evitar prejuízos aos lojistas. “Então, você vai lá, fecha uma rua, faz toda aquela infraestrutura embaixo das ruas, fecha o pavimento, vai para outra rua, tem que ser em parceria com o Saneago. Se não, eu vou abrir uma vez e depois ele vem e abre de novo e fica essa situação”, frisa.
Também estão na pauta iluminação, arborização, calçadas e sistema viário. “Isso também tem que ser trabalhado aos poucos, porque senão eu paro o Centro”, ressalta.
Por outro lado, está praticamente descartado o aterramento dos fios, que antes era desejado pela administração. “Isso tem se mostrado muito oneroso, um valor muito alto. A gente correu, deu uma juntada naqueles fios para dar um aspecto melhor e hoje a gente trabalha com a possibilidade de não enterrar esses cabos elétricos. Também a possibilidade de fazer enterramento somente das fibras ópticas”, aponta.
“Corre o risco de, depois, mudar a gestão, e eles voltarem às ruas. Também vêm novos ambulantes, você fez um camelódromo novo ali, e ainda vai tapar um monumento, que é tombado, inclusive. A gente está trabalhando com uma alternativa, vamos fazer uma rua primeiro, vamos avaliar, discutir com a CDL, discutir com os ambulantes e tentar colocar em pauta. Isso é um assunto difícil de você mexer, mas está andando”, revelou..






