Rafael Tomazeti
(com Henrique Morgantini)
“Aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína”. O verso de “Fora de Ordem”, de Caetano Veloso é um retrato do Brasil descontinuado com obras que se enrolam até serem carcomidas pelo tempo e se tornarem restos do que poderia ter sido e não foi. Por aqui, algumas obras lançadas pelo programa Anápolis Investe foram entregues ou estão em processo de execução. Mas as duas principais são motivo de grandes questionamentos e empurram o programa de investimento para uma interpretação de fracasso ou “mau negócio” para a gestão municipal. Enquanto o viaduto do Recanto do Sol se arrasta para além dos prognósticos, a Ponte Estaiada virou sinônimo de obra faraônica e desperdício de dinheiro público. Titular da Secretaria de Obras durante os dois anos de realização do Anápolis Investe, o vereador Wederson Lopes (União) analisa o projeto e revela qual foi a sua participação no programa. “Não me cabia escolher obras ou opinar, apenas executar”, explica. Confira:
ANÁPOLIS DIÁRIO – O Anápolis Investe foi alvo de muitas críticas. O senhor considera que deu algo errado? E se sim, o que?
WEDERSON LOPES – Eu considero que foi um avanço. O que se questiona muito é com relação ao valor dos juros em que o empréstimo foi adquirido. Esta é uma decisão pessoal do prefeito, coube a mim tocar as obras, fazer com que as coisas andassem. Então, eu creio que foi válido. Creio que o ex-prefeito deveria ter iniciado as obras que teria condição de concluir. Ele iniciou várias frentes de trabalho, e talvez pensado em fazer a sucessão para dar continuidade à conclusão dessas obras, algo que não aconteceu. Ele deixou, inclusive, créditos aprovados para se adquirir mais empréstimos ainda para finalizar essas obras. Como a sucessora perdeu a eleição, entrou um novo governo que entendeu que os juros eram muito altos e que não tinha interesse em adquirir esses empréstimos que estavam aprovados. Infelizmente, muitas dessas obras estão paradas. O prefeito atual diz que, no momento certo, quando colocar a casa em ordem, ele tem interesse em retomar as obras que estão paradas. Inclusive, tem algumas que estão em andamento novamente, o viaduto ali do Recanto do Sol e outras obras que ele tem a intenção de dar prioridade.
AD – O senhor chegou a sugerir e indicar alguma obra que fosse prioridade? Eu me lembro até que o Roberto chegou a mostrar que vereadores tinham indicado essa ou aquela obra. Qual foi o seu papel quando o Anápolis Investe era gestado?
WL – Quando eu cheguei [à Secretaria de Obras], os projetos já estavam prontos. Já tinha iniciado o Anápolis Investe. Então, eu cheguei, os projetos já estavam prontos, a grande maioria já estava em processo de licitação. Eu não tive essa interferência enquanto secretário. Enquanto vereador, indiquei a Arena Esportiva de Joanápolis, lá da Capelinha.
AD – A grande expectativa do programa era a realização do viaduto do Recanto do Sol. A população esperava a conclusão da obra. O que deu errado?
WL – Olha, essa obra, quando teve a empresa ganhadora, a que perdeu, recorreu. Então, demorou um tempo até se dar ganho de causa para a empresa realmente a vencedora. Depois disso, tivemos que destravar lá em Brasília, na ANTT. Tivemos que destravar também junto à Ecovias do Araguaia, que detém a concessão da rodovia.
Levou-se praticamente quase um ano só desembaraçando essas questões burocráticas. Então, teve todo esse desembaraço burocrático até que se desse realmente início à obra. E quando iniciou já era o último ano do governo.

AD – Outra obra que tinha grande apelo é a Ponte Estaiada. O senhor acredita que teve alguma falha de atuação para que esse projeto virasse uma espécie de ruína aqui na cidade? Ela é exequível?
WL – Ela é exequível, evidentemente. Aquilo que foi investido ali, quem passa lá perto, sabe que a parte de fundação, a parte de estrutura, aquilo não se perde. É uma obra robusta.
Eu penso que o prefeito [Roberto Naves] deveria ter focado em finalizar aquela obra, não ter iniciado outras frentes de trabalho. Finalizar aquela obra seria uma marca da gestão dele.
É uma obra importante, uma obra que ia trazer desenvolvimento para a região, seria um cartão postal. Mas, além de um cartão postal, afetaria a mobilidade de maneira positiva, trairia desenvolvimento, segurança para as pessoas que transitam da Brasil para a Pedro Ludovico, naquela região da cidade. Se eu tivesse no lugar do prefeito na época, eu tinha focado em iniciar e concluir aquela obra. Só que ele pulverizou o recurso que tinha já em conta, finalizou o governo e ele perdeu a eleição. O novo gestor também está nesse standby para ver se há interesse em retomar essa obra.
AD – Foi um erro do ex-prefeito ter lançado um conjunto de obras tão grande?
Eu não digo essa palavra “erro”. Eu penso que ele imaginava que faria o seu sucessor, no caso, a sucessora. E como perdeu a eleição, essa estratégia, esse planejamento caiu por terra. Eu penso que ele trabalhava nesse sentido, de fazer o sucessor e dar conclusão a todas essas obras.
AD – Na época, o senhor chegou a alertar que era melhor priorizar uma aqui, outra ali, para não ter essa sobrecarga?
WL – Não, não tinha essa autonomia, não. Tinha que tocar. A gente tinha várias reuniões, secretários, diretores, o prefeito. Tinha obra de Educação, de Cultura, de várias áreas, e iam elencando lá quais eram as obras que iam iniciar, que iam dar andamento, que iam fazer. Cabia a nossa parte, especificamente, apresentar as planilhas, com prazo, valores, mostrando as frentes de trabalho. A nossa parte era extremamente técnica mesmo.
AD – Após esta experiência como secretário, o senhor aceitaria retornar a atuar neste ou em um outro governo municipal?
WL – Não, não é algo que eu teria interesse, porque eu aceitei o convite justamente para ter essa experiência. Enquanto engenheiro civil, foi uma oportunidade de tocar uma grande frente de obras na minha cidade. Hoje, eu já conheço, já sei como funciona, já entendo, então eu não teria interesse de deixar um mandato de vereador, me licenciar e para assumir uma secretaria.





