O gerente da Equatorial Goiás em Anápolis, Rosimar Peres, e o técnico em segurança da empresa, Douglas Cézar, foram indiciados por fraude processual no caso da morte do menino João Victor Gontijo, de 10 anos. A criança morreu eletrocutada após contato com fio de poste da Equatorial na Praça Aquiles de Pina, região central de Anápolis.
O indiciamento é resultado do inquérito policial que investiga a morte do menino ocorrida em 19 de setembro de 2025. Assinado pela delegada Aline Martins Cardoso, o documento, a qual o Anápolis Diário teve acesso, detalha como os técnicos de empresa terceirizada foram ordenados a cortar o cabo responsável pelo choque antes da chegada da perícia policial.
Segundo apuração da Polícia Civil, os dois funcionários da Equatorial determinaram o corte do cabo assim que souberam do ocorrido. A alegação era que o cabo, energizado, poderia provocar novos acidentes no local, onde se aglomeravam autoridades policiais e populares.

No entanto, após o corte, os funcionários entregaram outro cabo, com uma identificação da Prefeitura de Anápolis. A investigação conclui que o objetivo era forjar a responsabilidade indicando outro fio, isentando a empresa de responsabilidade, automaticamente, inserindo o município na cena do crime.
“Conforme registrado expressamente no documento pericial, em razão de declarações prestadas por colaboradores da Equatorial Goias se afirmou, de forma inverídica, que um cabo identificado com plaquetas da Prefeitura de Anápolis teria sido o responsável pela energização e consequente eletroplessão da vítima”, indica o documento.

“Os peritos registraram expressamente no laudo complementar que a entrega indevida de material estranho à cena pericial, com aparência de autenticidade, bem como o testemunho tendencioso em sede policial, pode configurar conduta voltada a ludibriar a Perícia Oficial e a Autoridade Policial, visto que busca alterar a verdade dos fatos e desviar o curso da investigação técnica”, mostra inquérito.
A Equatorial Goiás admitiu também que o poste que continha instalações de cabos ancorados em hastes metálicas não havia passado por nenhuma fiscalização de rotina. O cabo que provocou a morte do menino estava energizado por estar em contato com uma haste metálica, sendo “ancorado” de forma irregular, como os próprios técnicos da empresa terceirizada reconheceram em depoimento à polícia.

DEPOIMENTOS
“O gerente da Equatorial, identificado como Rosimar, e o técnico de segurança Douglas estavam presentes no local e solicitaram que ele cortasse o fio energizado para afastar o risco de que outras pessoas se acidentassem”, revela um dos técnicos ouvidos na investigação.
“Crucialmente” – cita o inquérito – o técnico da empresa terceirizada “admitiu ter cortado e entregue aos peritos outro fio que possuía uma placa amarela e que apresentava sinais de queimadura, tendo entregue este fio para ‘o pessoal de azul’, em referência aos peritos da Polícia Técnico-Científica que utilizavam uniformes azuis.”

“Esta declaração demonstra inequivocamente que os funcionários, sob comando de Rosimar e Douglas, cortaram e apresentaram aos peritos o cabo falso com identificação da Prefeitura”, conclui.
O inquérito conclui que Rosimar Soares Peres e Douglas Placido Cezar “foram os autores intelectuais da conduta delituosa, tendo ordenado expressamente aos funcionários da empresa terceirizada que realizassem intervenções na cena do crime antes da perícia oficial e que entregassem aos peritos o cabo falso com identificação da Prefeitura Municipal”.
HOMICÍDIO
Apesar da identificação da tentativa “deliberada” em fraudar o resultado pericial, a delegada afirmou que a acusação de homicídio culposo não pode ser responsabilizada a nenhum dos envolvidos por tratar-se de uma situação multifatorial que levou à morte da criança.
No entanto, Aline Martins afirma ser “evidente que a omissão sistemática da Equatorial Goiás em fiscalizar os postes sob sua responsabilidade criou condições materiais que possibilitaram o acidente fatal”.







