Rafael Tomazeti e Henrique Morgantini
Há quem chame Anápolis de “Manchester Goiana” sem saber de onde viria o apelido com referência histórica. Já outros o fazem presos a cenários do passado glorioso da explosão industrial do município nos anos 1970. O apelido geográfico é uma referência à cidade inglês berço da revolução industrial no mundo.
Mas, hoje, quem projetou a Anápolis da revolução industrial goiana pode estar vivendo já sob uma Nova Detroit. A cidade americana, por sua vez, referência na indústria automobilística daquele país nas décadas de 1950 a 1970, viu os anos 80 trazerem declínio, estagnação e êxodo de investimentos.
A crise do petróleo levou a uma migração dos investimentos a carros mais econômicos e compactos, como os japoneses, que invariam os EUA. Detroit, que já foi conhecida como “Motor City” levou décadas para recuperar seu folego, ao custo da migração de sua modal industrial.
Em Anápolis, o encolhimento econômico permanente ficou – e talvez ainda esteja – adormecido por alguns analgésicos estatísticos: crescimento nos números de empregos formais e PIB sempre em franca evolução. Ninguém está vendo Anápolis diminuir porque os índices mais fáceis de se compreender são positivos.
No entanto, o PIB, sempre em crescimento, demonstrou estar em descompasso com o resto do Estado. Com isto, mesmo em crescente constante, o município foi ultrapassado por quem realmente estava crescendo em percentuais mais competitivos, caso de Rio Verde e Aparecida.
E não é só isto, dados consolidados do IPM – Índice de Participação dos Municípios – mostram que o Coindice, valor que define a participação de cada cidade no bolo financeiro do ICMS a ser repartido com 246 pratos, está encolhendo. Na prática, a fatia do bolo para o prato anapolino é cada vez menor.

COÍNDICE
A cidade caiu do segundo para o quarto lugar no Índice de Participação dos Municípios (IPM) e perderá espaço para Senador Canedo, numa queda livre para o quinto lugar.
A participação do município no bolo de arrecadação de ICMS em Goiás era de 5,89% em 2023, com um valor bruto na casa de R$ 17,756 bilhões. Em 2024, o número caiu para R$ 16,840 bilhões e 5,51% de participação total. Os percentuais seguiram em queda, com 4,613 para 2025 e 4,604 para o ano fiscal de 2026. Para efeito de comparação, o IPM de Anápolis em 2020 era de 6,433.
E mais uma vez ninguém está fazendo nada para conter este cenário: de líderes classistas a representantes políticos, nenhum grupo ainda reuniu todas as peças deste quebra-cabeça econômico que vai, aos poucos, moldando uma cidade bem longe do protagonismo de Manchester e mais perto da Detroit do “rusty belt”, o cinturão da ferrugem pós-crise do petróleo.

AVALIAÇÃO
Para o professor e economista Márcio Dourado, a tendência de queda deve se manter para os anos vindouros. “Há uma tendência que Anápolis perca ainda mais no Coíndice (conselho que define a distribuição) dado o tipo de bem que produzimos. Paralelo a isso vamos ter que rediscutir a reforma tributária. Também vai demandar discussões para o Coíndice. Anápolis, perdendo protagonismo econômico, vai perder arrecadação“, cravou.
De 20 anos para cá, diversos anúncios – dos mais variados governos – prometeram impulso econômico a Anápolis. Plataforma Logística Multimodal, Aeroporto de Cargas, distritos industriais municipais, Centro de Distribuição Internacional dos Correios…
Todos estes nomes carregaram o imaginário do anapolino com esperança, mas nenhum veio à fruição. E este fracasso leva o professor e economista Márcio Dourado a alcunhar a cidade como um “cemitério de projetos”.
“Anápolis precisa ir além dos incentivos fiscais. Investir em estrutura que suporte a vocação regional, aprimorando mão de obra e com infraestrutura produtiva em pontos que agregam valor. Anápolis se tornou um cemitério de projetos que não avançam. Ficam sempre no campo das ideias e não se consolidam para gerar riqueza”, sublinha.

ESTUDOS
Dourado tem trabalhado num artigo científico para seu doutorado que trata exatamente da perda de protagonismo da outrora Manchester goiana. Ele investiga o que levou à queda no ranking das maiores economias do estado, avalia as ‘concorrentes’ e traça potenciais cenários de futuro.
Ao Anápolis Diário (AD), o professor da UniEvangélica diz que os economistas tinham bem claro desde o início desta década que Anápolis ficaria para trás de Aparecida de Goiânia. As pistas estavam por todos os lados. A cidade da Grande Goiânia investiu pesado em distritos industriais próprios, ofereceu infraestrutura e, agora, colhe frutos.
“Lá há muito projeto na fase 1 e 2 de implantação. A medida que vão amadurecendo, vão entrando na fase de produção e consolidação, eles geram riqueza e isso reflete no PIB. Isso se dá pela quantidade de projetos que se instalaram. Eles vão se consolidando e produzindo”, explica o professor. Ele ainda prevê que os aparecidenses estarão cada dia mais à frente. “Aparecida tende a se afastar muito de Anápolis em uma liderança nos próximos anos à medida que estes empreendimentos vão se consolidando e passando de fase para ter mais produtividade”.
RIO VERDE
No caso de Rio Verde, Dourado avalia que a perda de posição é reversível, uma vez que o polo do Sudoeste tem sua economia calcada no agronegócio e as commodities têm ciclos e, por conseguinte, instabilidade de preços. Contudo, Anápolis precisa fazer seu dever de casa, que passa por dar espaço para a retomada do desenvolvimento. “Anápolis tende a ter estagnação pela ausência de novos projetos.”
Ele exemplifica: “é como você estar numa rodovia correndo a 60 km/h enquanto outros estão a 100 km/h, 120 km/h. Se não houver novos impulsos, seremos ultrapassados nessa disputa regional. Há mais de dez anos não tem grande projeto implantado. Há certos projetos de expansão, mas nada de grande expansão”.
FUTURO
Dourado não vê um novo boom econômico em Anápolis por, pelo menos, dez anos. E a justificativa é clara: infraestrutura hoje inexistente. “Infraestrutura não se instala da noite para o dia. Aparecida tem diversos distritos. Podemos vaticinar que Aparecida vai se consolidar ainda mais. Lá tem espaço para isso. Rede de energia, áreas disponíveis. E em Anápolis isso está escasso”, aponta, lembrando de gargalos de energia, água e também de áreas.
Na avaliação do professor, nem mesmo o forte ritmo de crescimento populacional de Anápolis, na casa de 1,5% – acima até mesmo que Goiânia, conforme o Censo 2022 do IBGE – garante saúde econômica, uma vez que o setor de serviços também carece de investimentos.
“Lugares que têm aeroportos viram hubs de serviços. Em Anápolis, o Aeroporto de Cargas não sai do papel. De serviços agregadores de valor não tem nada no radar no curto prazo. Hoje, diversos destes vão para o entorno de Goiânia”, frisa.






