Márcio Corrêa sobreviveu ao ano de 2025. E o uso do verbo “sobreviver” nem mesmo significa que o atual prefeito de Anápolis “quase morreu” no primeiro ano da sua primeira experiência como prefeito. Mas Corrêa pode dizer que escapou de diversos prognósticos que previam uma estreia muito turbulenta, e até nas crises que passou, como a prisão de um secretário municipal, contou com a “ajuda da ausência”.
Ao fechar o ano, o prefeito do PL superou desafios, driblou outros, jogando-os para 2026, teve de se equilibrar no gelo fino do caso “Anápolis na Roda” e fecha o ano sob o entendimento coletivo de que está com a popularidade em alta.
Para isto, Márcio Corrêa contou com dois fatores que direta ou indiretamente contaram com a sua habilidade para funcionar: a intensa atuação nas redes sociais e a ausência da movimentação de grupos de oposição demarcando posição.

Mesmo não tendo disputado eleição diretamente contra Márcio Corrêa, o vereador Domingos Paula (PDT) foi o nome mais ativo na missão de promover um discurso de oposição ao gestor municipal. E conseguiu.
Ainda que integrante do grupo político de Roberto a Vivian Naves, Domingos manteve nas sessões plenárias uma agenda própria de críticas e cobranças da gestão municipal sem necessariamente promover a defesa de legado do ex-prefeito, a quem é um aliado desde o primeiro mandato de Naves.
Ao longo de 2025, Domingos não só quase monopolizou o discurso de oposição, como pautou o debate de toda a Câmara Municipal e a base de Márcio Corrêa.
O grupo de vereadores da situação, que deveria ser liderado pelo vice-presidente José Fernandes (MDB), levou mais da metade do ano para perceber que todos caíam nas armadilhas retóricas de Domingos Paula. A começar por Fernandes, que fechou em 100% de aproveitamento das provocações do colega opositor. E mesmo depois de se tocarem da armadilha, alguns seguiram no caminho que o ex-presidente da câmara queria que seguissem.
SILÊNCIO
Fora da câmara, os nomes da “prateleira de cima” do debate político ficaram, quase o ano todo, em silêncio. A tímida exceção foi Roberto Naves (Republicanos). Mesmo sem método e frequência, o ex-prefeito postou ao longo do ano vídeos com críticas a declarações e atitudes do atual gestor. Várias manifestações foram reativas às falas de Corrêa sobre sua conduta e sua gestão.
Como Naves e Corrêa rivalizam uma disputa que já ultrapassou o campo político, as críticas do ex-gestor não tiveram a legitimidade para repercussão, uma vez que foram limitadas à “polarização” de ambos e, ainda, pelo natural desgaste que Roberto Naves enfrenta após oito anos de exposição pública à frente da Prefeitura de Anápolis.
Os que disputaram a eleição com Márcio Corrêa tiveram diferentes caminhos. Eerizânia Freitas (União) deixou o debate e a cidade. A ex-secretária de Educação de Roberto Naves se mudou para Goiânia, onde responde pela pasta de assistência social naquele município, logo após o resultado eleitoral e nunca mais disse um “A” sobre a política local.
Já o deputado estadual Antônio Gomide (PT) optou por se afastar da agenda política cotidiana a fim de “descansar a imagem” para em 2026 voltar a disputar a reeleição numa das vagas da Assembleia Legislativa. Ao invés de cobrar ações, promessas e pontuar o que avalia como certo ou errado, Gomide fez ponderações soltas, diluídas nas entrevistas que concedeu, muito mais focadas nos feitos de seu mandato parlamentar.
Nem mesmo no auge do momento de maior fragilidade do prefeito, quando da prisão da seu então Secretário de Comunicação, o trio acima marcou presença de forma mais incisiva. À exceção de Roberto Naves, os outros dois postulantes de 2024 passaram longe do assunto, a fim de não se comprometer com outros grupos igualmente arrolados no escândalo.

TRÉGUA
Dos outros nomes da Assembleia Legislativa, os representantes anapolinos da oposição se prostraram, ausentando-se quase que completamente do debate. Ex-primeira-dama, Vivian Naves (PP) ignorou a existência da gestão Márcio Corrêa. Vivian não esboçou reação qualificada nem mesmo quando da decisão do fechamento daquele que seria seu principal legado como deputada: a UPA da Mulher.
Feito a partir da destinação de 100% das emendas da deputada, o hospital foi fechado pelo novo prefeito, sob críticas de irregularidades na sua abertura e funcionamento. E ficou por isso mesmo já que quem poderia tomar à frente com legitimidade na cobrança pela reabertura decidiu pela estratégia do silêncio. Silêncio que, neste caso era – e segue sendo – música para o prefeito já que a unidade segue fechada para atendimento nos moldes do que foi planejado.
Nas poucas aparições de Vivian Naves para falar da política da cidade, a deputada pediu “trégua”. Em visita à Câmara Municipal, a pepista sugeriu que os grupos políticos passassem a pensar na cidade em primeiro lugar, “acima das disputas eleitorais”.
INDECISÃO
Já o outro deputado anapolino de fora do grupo de Corrêa não sabe se vai ou se fica. Coronel Adailton (SD), que não é conhecido exatamente por assumir posições e mantê-las por muito tempo, não entrou no debate sobre a gestão municipal diretamente.
O parlamentar, que sonha e se prepara nos bastidores para ser candidato a prefeito, falou por intermédio de outros nomes do seu núcleo político. Seu grupo político-familiar adquiriu a marca de um jornal, que logo mudou de nome, e um programa de rádio com forte presença de opinião no meio político.
E foi por meio destes veículos, comandados por seu filho, que veio a grande demonstração de indecisão. Após uma fase de jornalismo crítico e forte acompanhando passo-a-passo das ações do prefeito, colocando-as sob justos questionamentos, a linha editorial do veículo de Adailton mudou e passou a… elogiar o prefeito.
Nos bastidores, a notícia era uma só: o alinhamento de Adailton e Corrêa. O prefeito passou por quase 30 dias de regozijo e leveza nas pautas. Era a lua de mel de Adailton e Márcio no ar.
Durou pouco. Agora, a orientação editorial passou a ser novamente crítica e até jocosa. Aos ouvintes e leitores mais atentos, fica a incerteza de saber qual será o caminho final, ou mais duradouro, na linha editorial e na relação política dos grupos.
Outra manifestação do grupo de Adailton foi por intermédio de sua mulher, a vereadora Capitã Elizete (PRD). Durante prestação de contas na Câmara, Elizete reclamou que o prefeito não tinha chamado seu marido e ela “para uma conversa” e que, segundo ela, isto impediria que o deputado enviasse emendas para contribuir com as obras e ações da gestão.

SALDO
Na imprecisa e subjetiva matemática da Política, Márcio Corrêa passou apertado, tremeu nas bases, mas também teve habilidade para costurar acordos, amainar a oposição (como no caso da mudança de humores de Adailton) e se agarrou àquilo que lhe deu maior resultado: as redes sociais.
Superados os vídeos polêmicos de abordagens duvidosas – para se dizer o mínimo – o prefeito focou na presença e fiscalização dos problemas e obras pela cidade. A atitude amplamente registrada nas redes sociais em vídeos que aparece com forte interação com as pessoas (como no episódio em que o prefeito informa a um condutor que ele havia sido multado), foi ao encontro de um recorrente desejo do cidadão anapolino: sentir a presença de seu prefeito nas ruas, dando a ideia de proximidade e interesse com o dia a dia da população.
A reivindicação por presença nas ruas era um antigo pleito do anapolino ao ex-prefeito Roberto Naves, cujo perfil de executivo o segurava mais ao gabinete, gerenciando as decisões. E ao fazer esta leitura, Márcio Corrêa marcou seu primeiro ano como alguém interessado na agenda local e disposto a encontrar solução aos problemas ou mesmo ouvir o que cada indivíduo tem a falar.
A partir de janeiro, no entanto, a agenda será outra, com novas expectativas por parte do anapolino, que terá outro grau de cobrança e anseio de ver “resultados” plantados no primeiro ano. Tudo isto numa agenda apertada pelo calendário eleitoral. Será, portanto, uma nova fase a ser superada. Mas Márcio Corrêa terá como ativo político o fato de ter terminado o ano bem e em alta com grande parte do eleitor que votou e, principalmente, que não votou nele.
Enquanto isto, do lado do núcleo de poder municipal, todos os agentes de oposição, à exceção de Domingos Paula, serão também candidatos. E restará a dúvida de como vão abordar a gestão municipal no corpo-a-corpo que farão com o eleitor anapolino em busca de voto.






