“São obras sem visibilidade, não dão voto. Não tem nem jeito de soltar foguete na inauguração”. Assim o jornalista Nilton Pereira, testemunha de grande parte da história recente de Anápolis, se refere ao caráter estratégico de obras de infraestrutura que correm “debaixo da terra”.

É fato corrente que as chamadas obras estruturantes não representam um salto de popularidade na entrega de um legado de um gestor, seja prefeito ou governador. “Só é impactado quem sente a mudança, não é uma obra que todo mundo passa e diz, ‘foi o fulano quem fez’”, completa Pereira.
Ele próprio é testemunha ocular do último grande investimento feito em obras subterrâneas em Anápolis, feito na segunda metade dos anos 1980, através da dobradinha dos irmãos Santillo. “A chamada cidade velha tinha pouco esgotamento sanitário. Lembro disso perfeitamente. Adhemar era prefeito, Henrique Santillo, governador. As obras foram feitas pela Saneago e rasgaram a cidade inteira para realizar o esgotamento sanitário”, recorda.
“IMPOPULARIDADE”

“Tínhamos o esgoto sanitário em poucas ruas, talvez duas ou quatro ruas, e o Henrique cortou a cidade toda. Ele fez esse trabalho enorme de furar todas as ruas”, destaca a então primeira-dama de Anápolis, Onaide Santillo, cunhada do então governador Henrique Santillo.
A ex-deputada estadual ainda se recorda que a impopularidade das ações era enorme pelo tamanho dos transtornos e por não haver um apelo “midiático” na visibilidade do trabalho da prefeitura em parceria com o Governo de Goiás, através da Saneago.
“Eu me lembro que a oposição dizia que a cidade estava toda esburacada. Uma vez colocaram uma repórter dentro do buraco para ironizar o trabalho, dizendo que aquilo ia fazer a cidade melhor, mais feliz”, relembra. “Depois todos perceberam a mudança positiva”, completa.
ANÚNCIO
As obras de Adhemar e Henrique Santillo, no idos de 1986/1987 foram as últimas de grande porte exclusivamente dedicadas à drenagem, naquele caso criando uma nova e ampla rede de esgotamento sanitário, pondo fim às fossas sépticas. “É sempre uma obra enorme que ninguém vê. Mas no final virou uma questão de orgulho de Anápolis. Já tínhamos hotéis, escolas e tudo era usado com fossa séptica”, frisa a ex-primeira-dama, que não esconde a alegria do assunto. “Fico feliz de ter essa oportunidade de falar”, agradece.
Agora, quase 40 anos depois, a cidade deverá ter novamente um pacote de obras de alto investimento somente voltado para a estrutura de funcionamento interno, literalmente correndo embaixo dos pés dos anapolinos.
Anunciado pelo prefeito Márcio Correa (PL), as obras de drenagem pluvial chegam a R$ 34 milhões e são fruto do investimento do Governo Federal, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Se nos anos 80, o desafio era organizar o esgotamento sanitário, agora, um dos temores de Anápolis são os alagamentos, enchentes e transbordos durante o período de chuva.
PONTOS PRIORITÁRIOS

“Apresentamos ao Ministério das Cidades um conjunto ampliado de projetos de macrodrenagem, que contemplam tanto Soluções Baseadas na Natureza (SbN), voltadas ao aumento da infiltração das águas pluviais, quanto obras estruturais, como bacias de retenção, destinadas a controlar o volume de água nas principais áreas de risco da cidade”, explica o Secretário Municipal de Obras, Thiago de Sá Lima.
A prioridade inicial, informa o titular da pasta, será a execução das intervenções nas bacias do Antas, Goes e João Cezário. “A expectativa é que os processos licitatórios sejam concluídos ainda durante o período chuvoso deste ano, de forma a garantir o início imediato das obras assim que as chuvas cessarem”, prevê.
Sá Lima ressalta que, além dos R$ 30 milhões destinados às intervenções de drenagem, também foram previstos R$ 4 milhões para obras de contenção de encostas. “O objetivo é reforçar a segurança de famílias que vivem em áreas vulneráveis”, explica.
“Diante do período chuvoso, já em curso, serão realizadas ações emergenciais com recursos próprios ainda neste ano, a fim de mitigar riscos e reduzir os impactos à população”, antecipa Thiago Sá Lima, secretário de Obras.
PIONEIROS
O jornalista Nilton Pereira também recorda de outros nomes importantes neste processo de modernização do “esqueleto” da cidade. “Houve a canalização do Ribeirão Antas foi feito no período da intervenção do (prefeito nomeado) Olímpio Ferreira Sobrinho. Depois o Wolney Martins terminou a obra na região da Vila Góis”, cita Pereira.
Ainda sobre as obras de sanitização e da organização do esgotamento sanitário, Nilton Pereira ensina que havia uma estação rudimentar de tratamento de dejetos sólidos, na região central. “Era próximo de onde hoje é o Senac, quase em frente ao Ginásio Newton de Faria”, orienta.
Pereira faz questão de citar outros nomes igualmente importantes nesta construção que “começou nos anos 50”. “O grande canalizador foi (o ex-prefeito) Eli Alves Ferreira. Ele quem fez a extensão do trabalho do Carlos de Pina. Já o sistema moderno foi com os Santillo e a Saneago”, ensina.
OUTRA CONQUISTA
Uma das pioneiras no debate ambiental em Goiás e em Anápolis, a ex-deputada estadual Onaide Santillo aproveita o tema para destacar outra ação de grande impacto na gestão dos irmãos Santillo e que, segundo ela, igualmente não é um projeto vistoso como prédios ou viadutos: o aterro sanitário.
“O aterro sanitário foi construído na segunda gestão do Adhemar. A cidade tinha lixões. No final da Jaiara tinha um enorme e a Base Aérea comunicou a Prefeitura que os urubus estavam atrapalhando os voos. Todo o esgoto era jogado no Piancó. O Adhemar conseguiu o aterro, que foi o primeiro de Goiás após a capital. Foi uma obra valiosíssima que acabou com os lixões”, relembra Onaide.
AÇÕES RECENTES

Engenheiro Civil e ex-secretário de Obras da Gestão Roberto Naves, o vereador Wederson Lopes (União), reafirma a necessidade das obras de drenagem, “uma vez que vários bairros em Anápolis não possuem galerias de água pluvial GAP a exemplo do bairro Morumbi, parte do Parque Brasília, dentre outros”.
Para Lopes, que também é presidente da Comissão de Urbanismo e Obras da Câmara Municipal, a demanda mais urgente é resolver os históricos pontos de alagamentos e inundações na cidade como Amazílio Lino, avenida Ayrton Senna, e outras.
“Nesse aspecto creio que as técnicas tradicionais de Drenagem com GAP devam ser executadas em conjunto com as Drenagem verdes, que chamamos de SbN, “Soluções Baseadas na Natureza”, que envolvem jardins de chuva, bacias de contenção, parques alagáveis, curvas de nível, etc”, avalia.
O parlamentar recorda que em sua passagem pela gestão municipal também contribuiu com obras de drenagem. Principalmente na reconstrução das três pontes que foram destruídas nas chuvas de 2022, nas Avenidas Independência e Belo Horizonte, e na Rua 2, nas imediações do Parque da Matinha. “Todas têm obras de Drenagem e galeria de água pluvial GAP. Também fizemos cinco Jardins de Chuva na Avenida Brasil Sul, abaixo da CMTT, e deixamos prontos um plano de macrodrenagem para a cidade”, conclui.






