Nos últimos quatro anos da gestão de Roberto Naves (Republicanos), o então suplente de deputado federal e presidente do MDB anapolino Márcio Corrêa tinha um “núcleo duro” formado por um trio de vereadores. Coeso, o grupo de oposição formado por Trícia Barreto, José Fernandes e Seliane da SOS, todos do MDB, jamais saíram da linha estratégica e permaneceram grande parte do mandato como oposicionistas.
Trícia Barreto deixou a carreira política ao final de seu mandato. José Fernandes e Seliane foram reeleitos junto a uma ampla base de apoio e o principal, Márcio Corrêa, já no PL, tornou-se prefeito. Era chegado, portanto, o momento de navegar nas águas tranquilas do Poder e comandar uma base ampla e experiente.
Mas não é o que tem acontecido. Enquanto o prefeito de Anápolis atua nas mídias eletrônicas para apresentar dinamismo e extremo contato popular, andando dia e noite em diversas “pautas” da cidade, na Câmara, o que parecia fácil, virou mais que desafio: ganha ares de problema.
LIDERANÇA
Se o nome ideal parecia ser o de Jakson Charles, sua ligação com a gestão anterior, de quem foi líder por oito anos, e sua filiação ao PSB, impediram Corrêa de bancar esta escolha, apesar de possível como hoje está provado. O cargo sobrou – sem aspas – para Jean Carlos (PL), que confirmou as expectativas que todos tinham sobre ele.
Definitivamente, o experiente parlamentar não é o nome para o cargo. É confuso, com oratória monocórdia e, por vezes, se perde nas falas numa clara manifestação de quem não tem uma estratégia. Jean Carlos tem seu nome escrito na história do Legislativo e na defesa dos servidores. É um bom jogador colocado fora de posição.
Sua liderança vem se arrastando por um caminho tortuoso até chegar ao ápice da discussão da última quarta-feira (03) quando entrou em rota de colisão direta justamente com um parlamentar conhecido pela sua retórica efusiva, agressiva e intimadora, o mesmo Jakson Charles. O resultado está na transmissão do Youtube e na cobertura do Anápolis Diário para todos verem e lerem.
Se quiser manter Jean Carlos no posto, Márcio Corrêa terá de se empenhar para fazer sua base, e principalmente a Mesa Diretora, quererem salvar seu líder. Se deixar como está, o prejuízo à imagem do líder pode escorrer até o Poder Executivo.
MESA DIRETORA
Outro ponto que chama a atenção na atuação política até aqui é o comando de Andreia Rezende (Avante) na Casa Legislativa. Carregando a experiencia dos Batista, pai e irmão foram presidentes da Casa, Rezende deixa o jogo correr. Mas deixa até demais.
Com isto, muitas vezes não só a Câmara Municipal se queima junto à opinião pública, sempre aparecendo com pautas esdrúxulas e discussões agressivas, destas que vivem na antessala da agressão física.
O cenário tem também potencial de atingir a Márcio Corrêa. Não à sua imagem, mas impedindo que a gestão tenha no Legislativo uma agenda positiva de conquistas, avanços, de ações que possam ser apresentadas pelos parlamentares da base.
Andreia Rezende ganha moral com os vereadores, dando-lhe “liberdade de atuação” e tem um discurso perfeito para o Executivo: “estamos aprovando tudo que é enviado”. Mas, no dia a dia, o Executivo vira alvo fácil por não haver um comando estratégico de articulação política.
É fácil perceber, mas duro de se admitir dentro do grupo de Corrêa: Domingos Paula tem inúmeras lições de como tourear uma Legislatura voltada para ajudar o Executivo.
SILÊNCIO E FÍGADO
E então os olhos se voltam à base e, principalmente, os dois nomes da “velha-guarda” de Márcio Corrêa. Seliane não tem um perfil de conflito, mas tem – até o momento – pecado pelo excesso de silêncio. Entra muda e sai calada nas sessões plenárias, enquanto Corrêa acorda cedo e dorme tarde gravando vídeos. Não defende, já que não é seu estilo promover o embate, mas também não elogia, não enaltece, não sublinha os feitos da gestão.
Caminho inverso faz seu colega. O vice-presidente José Fernandes fala, e fala para além do “falar demais”. Fala a ponto de dar “Bom Dia a cavalo”. Com o poder do microfone da vice-presidência nas mãos, Fernandes ainda não superou os “anos de cárcere” ou, no caso, de oposição sob o jugo da presidência de Domingos Paula (PDT).
Agora, sua principal função na Câmara parece ser responder mal ao hoje mero colega Dominguinhos. Para raciocinar, usa o fígado. E nem mesmo sua intelectualidade de duas faculdades, Medicina e Direito, o afastam de usar termos como “vomitando merda” para responder o colega que, muitas vezes, é “atacado” por ser lembrado de sua profissão de “pintor de paredes”.
E, mesmo assim, o pintor Dominguinhos segue jogando tinta no quadro que quer pintar, sendo uma “Oposição de um homem só”. Basta abrir a boca para que a base mais falante de Márcio Corrêa esqueça a pauta positiva e apareça correndo para… bater, bater, bater.
E, como no Boxe, bater cansa mais que apanhar. Ganha quem fica de pé. Domingos tem sido o Mohamad Ali do Legislativo nestes oito meses.
José Fernandes, que tem a pauta da Saúde quase que exclusivamente em suas mãos, até quando vai elogiar as ações do prefeito abre brecha para chamar a oposição ao palco: assume tom revanchista, raivoso. Pouco celebra e muito debocha. É como se perfumar aplicando o spray contra os próprios olhos.
“MÁRCIO CORRE AQUI”
Assim, Márcio Corrêa vai precisar, em algum momento, olhar para sua própria base, por a bola no chão e definir alguém para tocar a sua estratégia. Ou ele mesmo terá de conciliar seus corres da noite em UPAs ou atrás de marginais para organizar sua vida no Legislativo.
Hoje, a Câmara não se apresenta a ele como um prejuízo, um peso, afinal tudo está tranquilo. Mas, politicamente, está deixando para trás a chance de fazer algo fundamental na construção da imagem positiva do gestor: reverberar a agenda positiva.
O chamamento precisa ser rápido, isto caso queira que a Câmara seja uma propulsor de boas notícias e não um puxadinho do Zorra Total piorado, daqueles feitos pelo SBT.






