Por Del Bernardo

Dizem por aí que agora a cultura vai bem, obrigada. Que tudo flui como nunca. Que agora temos uma Secretaria própria, que finalmente estamos nos trilhos. Mas… será mesmo?
Vamos aos fatos — e aos absurdos.
Destinaram um espaço para uma escola e venderam como se fosse a grande salvação da educação anapolina. Discurso, palmas, fotos e mais um teatrinho político encenado com pompa e circunstância. Só esqueceram um pequeno detalhe: a lei.
Sim, aquela que destina o espaço ao setor cultural e garante que os recursos das Escolas de Artes sejam aplicados exclusivamente no Centro Cultural Dulce de Faria. Mas ignorar a legislação virou tendência, não é? Parece que o novo modelo de gestão é esse: passa-se por cima da legalidade, sorri-se para a foto e finge-se que está tudo certo.
Construíram um espaço pensado, projetado e quase finalizado para ser a casa da arte: 65% da obra concluída, climatização, acessibilidade, espelhos, piso vinílico, tratamento acústico, mobiliário previsto em orçamento, processo de adesão e compras em andamento… Estava tudo pronto para funcionar.
Mas a atual gestão — num estalar de dedos e sem qualquer consulta — resolveu parar tudo. Simplesmente decidiu transformar o espaço em um CMEI ou escola de ensino regular. Sem passar pela Câmara. Sem escutar o setor. Sem vergonha nenhuma.
E ainda dizem que o setor cultural não quis ir para lá. Quem disse isso? Em qual reunião? Com qual artista? Porque permanecer em um prédio alugado, com escada perigosa, teto desabando, sem ar-condicionado, sem divisórias e sem acessibilidade… definitivamente não parece uma escolha racional.
Vamos falar a verdade: o Dulce de Faria não foi abandonado por falta de projeto. Foi abandonado por escolha política. Por retaliação.
Mas, segundo dizem, agora a cultura está sendo cuidada por quem “entende de cultura”. Entende mesmo? Porque quase devolveram os recursos da Aldir Blanc. Só não devolveram porque o Governo Federal, generosamente, abriu mão. Na gestão anterior, nenhuma verba federal foi devolvida.
E aquela tão falada “valorização do setor”? Criaram uma Secretaria de Cultura. Lindo no papel. Emocionante no discurso.
Mas… Criaram uma Secretaria… e esqueceram de dar autonomia.
Criaram uma Secretaria… e esqueceram de dar orçamento.
Criaram uma Secretaria… e taparam sua boca.
O resultado? Uma estrutura que faz menos do que uma diretoria. Sem poder de decisão. Sem política pública estruturada. Sem planejamento.
Uma Secretaria decorativa, simbólica. Criada para parecer que existe, mas sem permissão para existir de fato.
E se alguém ousa reclamar, questionar ou cobrar? O preço é alto: Se for comissionado, é exonerado. Se for gratificado, perde a função. Se for artista com projeto aprovado, é cortado na raiz. É a cultura do medo. A cultura da mordaça.
A cultura da retaliação.
Mas cultura, de verdade, não floresce sob silêncio forçado. E os vereadores? Silêncio absoluto. Nem uma palavra sobre a paralisação da obra. Nem uma cobrança sobre o descumprimento da lei. Nenhuma defesa das escolas, dos professores, dos alunos. Do setor. Enquanto isso…. As escolas de artes seguem espalhadas, improvisadas e invisibilizadas.
A de dança, em prédio alugado, sem acessibilidade, onde o teto já caiu — literalmente. A de teatro, em espaço pequeno e precário. A de música, sem estrutura e com auditório implorando por reforma. A de artes visuais, com salas sem divisórias, sem estrutura, em ambiente insalubre.
E tudo isso poderia estar resolvido. Porque o Centro Cultural já estava praticamente pronto. Só não entregaram porque… não quiseram. Agora me diga: os alunos das escolas de artes merecem menos que os dos ensinos regulares? Os professores não merecem a mesma dignidade que os demais?
A arte é tão menor assim? Mas já que é pra falar de desmonte, vamos lembrar o que de fato foi feito.
Desmonte foi quando a Galeria Antônio Sibasolly foi restaurada? Desmonte foi a criação da primeira sala de cinema pública do estado, com recursos da Lei Paulo Gustavo? Desmonte foi a reforma do Teatro Municipal? Ou quando o Arraiana criou um palco exclusivo para artistas locais, com cachês pagos com dignidade? Ou ainda quando o maior orçamento da história foi destinado ao Fundo Municipal de Cultura — com edital de mais de R$ 2 milhões, e outro de R$ 3 milhões deixado estruturado?
Ah, o Arraiana…
Durante o Fórum de Cultura, o prefeito afirmou que gastar com shows nacionais era desperdício. Disse que o dinheiro deveria ir para o setor cultural. Lindo. Emocionante. De encher os olhos.
Mas agora, o mesmo prefeito realiza uma Expona fora de época, com contratação de shows nacionais via emenda parlamentar — e com complemento de recursos da prefeitura. Dinheiro público, sim. E o investimento prometido ao setor cultural? Sumiu.
O Fundo Municipal de Cultura, até hoje, sem publicação. E os artistas da cidade, no aniversário do município? Quantos subirão ao palco? Quantos serão contemplados com cachê? Qual foi o critério? Teve edital? Consulta pública? Ou foi tudo no cabresto?
A cultura local virou espectadora do próprio desmonte.
E não se trata de um caso isolado. Esse é apenas mais um dos equipamentos criados ou estruturados na gestão anterior que teve seu destino alterado por puro capricho político. Uma perseguição? Talvez. Ou apenas medo de dar mérito a quem fez o que eles não conseguem fazer.
Porque mudar o nome e dizer que fez… é fácil. Difícil é tirar do papel e entregar. Difícil é fazer de verdade. Usar estrutura pronta e mudar sua finalidade virou padrão. Foi assim com o Dulce de Faria. Com a UPA da Mulher. Com o Restaurante Popular, que foi entregue, fechado, pintado… e reinaugurado com nova placa e novo nome.
Hilário, para não dizer ridículo.
E o que eu tenho a ver com isso?
Tudo.
Porque, num tempo em que questionar virou crime, em que defender a cultura virou ameaça, em que o medo cala as vozes…. Eu escolho falar. E enquanto houver ar nos pulmões, memória nos olhos e verdade nas palavras — Não vou me calar.





