O sonho virou pesadelo. A possibilidade de fazer um curso superior, ter uma profissão e melhorar de vida ficou mais fácil para centenas de anapolinos que conseguiram se enquadrar no Programa Graduação, criado na gestão passada em Anápolis.
Mas, agora, a situação não só compromete o projeto do presente, mas pode complicar muito o futuro destes estudantes. Desde que assumiu o município, o prefeito Márcio Corrêa (PL) anunciou a suspensão do programa por dois motivos: falta de recursos financeiros para o custeio e desconfiança de fraude na concessão de algumas bolsas.
“Seguimos na mesma, sem nenhum posicionamento do prefeito. No meu caso, não paguei nada desse semestre. Mas a dívida está lá no meu nome, já que a prefeitura não pagou”, relata Isadora de Assis Moraes. A estudante de Medicina foi uma das personagens de uma reportagem do Anápolis Diário sobre a situação do programa municipal ainda em fevereiro deste ano.
Conforme relata, os problemas já começaram com o fim do semestre. “Os alunos dos últimos períodos, que precisavam fazer matrícula primeiro, não estavam conseguindo. Tiveram que entrar com advogado para conseguir autorização pra se matricular”, explica.
O motivo da judicialização é a inadimplência da gestão municipal que, sob contrato, fez o compromisso de pagamento dos cursos dos contemplados, mas não tem feito o repasse. “Aparentemente, todos nós teremos que entrar com advogado pra conseguirmos fazer matrícula”, lamenta a estudante.

“TENHO MEDO”
Longe do cobiçado curso de Medicina, a aflição continua. A estudante de iniciais N.C. fez um longo e detalhado relato sobre o que tem vivido na tentativa de retomar sua bolsa no Programa Graduação. Ela compartilhou sua história sob uma condição: não ter seu nome revelado.
Ao ser questionada, N.C. foi direta: “Tenho medo”. E em seguida envio ao Anápolis Diário um print de tela de quem acessa recorrentemente seus stories em que aparece a imagem do perfil do prefeito Márcio Corrêa. “Ele tem olhado até mesmo os perfis do Instagram dos bolsistas”, disse, ao mostrar a imagem. O AD registrou esta imagem, mas por segurança e privacidade não irá compartilhar.
Apesar do medo do que pode sofrer com retaliações, N.C. quer concluir o curso. “Estava prestes a ir pro oitavo período, porém minha vida virou um inferno. A faculdade está cobrando R$ 9 mil para eu conseguir me rematricular, mais um absurdo de mensalidade”, relata a estudante. O valor seria o acumulado da dívida deixada pela gestão municipal em seu nome.
ESTRATÉGIA
A estudante ainda reclama da postura do prefeito anapolino, que teria adotado uma estratégia para evitar processos. “O Márcio [Correa, prefeito de Anápolis] não cancela oficialmente a bolsa pra não conseguirmos mover um processo na justiça e alega não ter dinheiro pra continuar com o programa, enquanto eu sofro com todos esses transtornos”, critica.
Segundo o relato da jovem estudante, um grupo se reuniu para contratar um advogado que teria sofrido pressão política para desistir da assistência. “Depois de procuração assinada e um semestre todo de espera, o advogado desistiu por medo de retaliação”, revela. Ela indica que, por este motivo, tem medo de ser identificada e perseguida a exemplo do que teria acontecido ao seu advogado.
“Eu realmente dependia muito daquela bolsa pra estudar. É muito injusto, entramos com um sonho e saímos com uma impossibilidade e dívidas”, avalia.

INVESTIGAÇÃO
Enquanto alunos esperam por uma resposta da gestão municipal, que seja pela continuidade ou mesmo pela suspensão da bolsa, a Controladoria Geral do Município anuncia a abertura de uma auditoria interna sobre o programa. Sob o comando da Controladora Camila Cozac Leite, no último dia 07, a portaria foi publicada.

O Anápolis Diário entrou em contato com a controladora por intermédio de mensagem. Foram repassados a ela os seguintes questionamentos:
- Qual o foco da investigação, quais foram as principais suspeitas encontradas para dar início a este procedimento?
- Foi anunciado pelo prefeito há alguns meses que havia suspeitas e que seriam enviadas ao MP-GO. Este encaminhamento foi feito? Nesta direção, a atuação da CGM diferiria em que da ação do MP em termos de análise?
- Há uma previsão de início e término deste trabalho?
- É possível, a partir da conclusão desta ação, a retomada do programa aos alunos em condições regulares?
A controladora não respondeu à mensagem e tampouco aos questionamentos acima registrado. O espaço está aberto para qualquer posicionamento.






